sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Olhos recicláveis

Mesmo tendo habituado meus olhos a verem só o que eu quero, às vezes me escapa o filtro, e acabo vendo aquilo que todos fazem questão de não enxergar: os homens invisíveis, as crianças invisíveis, as mulheres invisíveis. Estes só tomam forma quando lhe roubam o sossego ou por um descuido do olhar...

17:45, dia ainda claro, uma rua do Itaim Bibi... Pela calçada a maioria dos homens estavam engravatados e as mulheres de tailleur. Pela rua passavam alguns carros populares e muitos carros de luxo. Um dia normal, num lugar cotidiano...

Estava parada num ponto de ônibus, prestando atenção nos carros que vinham, meio zonza com o movimento até que um utilitário torto, desbotado, fazendo barulho parou ali. Saltou dele um garoto magrelo, moreno, muito magro, com movimentos bruscos dos membros e um chinelo escorregadio no pé, talvez uns quatro números maior que seu pé... me causava repulsa... e só.

Aquela cena me incomodava... destoava... mas logo passou... depois de recolher todas as caixas de papelão que estavam no lixo, com os mesmos movimentos bruscos, o chinelo torto e a camisa furada, o garoto entrou no utilitário, bateu a porta e com um arranco saiu dali.

Pisquei os olhos e o filtro se instalou novamente... continuava a esperar o ônibus que veio em alguns minutos...

Entre uma Santa Fé, uma Vera Cruz, um Audi Q7 e uma BMW M3, lá estava a chevrolet C10 1970 com uma carroceria de madeira, desta vez com o muleque torto em cima dela, dobrando os papelões que outrora jogou ali dentro.

E agora já não me causava repulsa... mas indginação.
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