terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Sobre qualquer Coisa


Coisa: A palavra mais vazia de significado e mais plena de sentidos.

Não menospreze os acasos, a dúvida que gera o erro geralmente é o que mais nos excita.
A vida é isso aí, dói, deixe-a ser. É uma corda solta.
Numa ponta, a saudade. Na outra, uma ponta de desejo.
Salte pra qualquer sorriso que lhe cause arte...

Nunca faça algo esperando retorno, isso não é bondade, é vaidade!
Não queira transformar ideias em realidade, sua vida só será um plágio mal feito delas.
A ansiedade é a medida do desencantamento, estraga a espera.
Espera! A sorte é o cuidado dos detalhes...

Ando com vontade de usar flores atrás da orelha. De andar com passos leves...

Viva a morte

Tinha medo da morte. Não da morte em si. Mas dos segundos de consciência que a antecediam. Percebeu que estava ficando velho quando se preocupava mais com seus pais do que seus pais com ele. Preocupou-se por não ter filhos. Assustou-se quando os pais de seus amigos começaram a morrer, a consciência lhe mostrou que seus pais não eram heróis, muito menos imortais.

Mas o que poderia fazer com o tempo? Amanhã acordo com 70 anos - pensou. E só tinha 26. Tudo passava rápido demais. Seu primeiro luto foi aos nove anos. Avô materno. Não sentiu muito. Desconhecia o que era a morte. Na inocência da infância era apenas uma saudade perpétua. Aos 16, veio seu segundo luto. Seu padrinho de batismo. Com esse veio a lágrima. A lágrima de culpa, da certeza de impotência perante o tempo. Da incapacidade de mudar o passado, da impossibilidade de pedir perdão aos mortos.

Na adolescência a morte tomou forma. Assombrava-o. Tinha medo de morrer antes de amar. Tinha medo de ser morto. Tinha medo de ir pro inferno. Vez ou outra, chorava de medo de seus pais morrerem, outras vezes, desejava que morressem. Ah... a adolescência é a própria morte! Veio seu terceiro luto. Matar alguém dentro de si. Perguntou-se quantas vezes aquilo iria se repetir na vida e desejou morrer.

Vida adulta. A morte agora era branda. Entendeu que era o ciclo natural da vida. Morrer aos poucos todos os dias. Agora tinha as chaves de casa. Mas não tinha as chaves de seu coração. Coração povoado de moribundos e cadáveres, um verdadeiro cemitério de ilusões desfeitas. Morava sozinho. Nem sempre a vida era como ele imaginava. Mas nem por isso desejava morrer. A idade agora lhe mostrava que por egoísmo preferiria morrer antes de seus pais, mas por heroísmo, tinha que morrer depois deles.

Por egoísmo, também preferiria postergar um pouco mais a morte pra aproveitar mais a vida. Mas esse não era seu caso. Antes a dor do luto que a sensação de uma manhã vazia. Evitava acordar cedo aos fins de semana para não ter um longo dia de solidão. Era difícil conviver com aquelas lápides dentro de si. Aquilo o gelava de dentro para fora. Parecia um morto. É isso que a vida faz: Te mata

lentamente...
Licença Creative Commons
This work is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 2.5 Brasil License.