O Porquê de Persephone

Como todos me perguntam: "Por que Persephone?" "O que é Persephone?". Resolvi criar esta página apenas para falar sobre minha paixão por Persephone (deusa grega), de onde surgiram o nome e o objetivo deste blog long time ago em 2009.

Mas antes de contar quem é Persephone na fila do pão, ou melhor, na fila do Olimpo, vale dizer que aqui você vai encontrar reflexões sobre a vida, tentativas de crônicas, contos, poesias, divagações, experiências de viagens (inclusive as fotos são das minhas andanças por aí), uma pessoa confusa, por vezes piadista e em outras extremamente sensível. Ah! Vale lembrar que mesmo que você se identifique com algum textinho meu, eu jamais exponho nomes ;) Afinal, é do contato com o mundo e com os outros que borbulha essa sopa de letrinhas.


Vamos lá! Persephone é uma deusa grega que na literatura representa a deusa da poesia iâmbica. What f***? Essa palavra rebuscada significa riso satírico. Que os acadêmicos não revoguem meu diproma com essa simples definição, mas vamos simplificar a vida né mores?  Com sete astros em sagitário eu não poderia tratar, até mesmo os temas mais tristes, senão com um tom de brincadeira ou piada.

Na mitologia da Grécia Antiga, Perséphone era a filha da deusa Deméter (deusa da agricultura) e de Zeus (o deus supremo) desculpa aí rs. Há boatos que Perseps, para os mais íntimos, despertou o interesse do deus Hades (deus do mundo inferior e dos mortos). E é aí que a treta começa né minha gente?

Zeus, supremo que era, concedeu sua filha a Hades sem consultar a mãe da menina. Hades arrastou Perseps para seu reino subterrâneo. E Deméter, hashtag chateada, com a ausência da filhota, apenas chorava e não cuidou de "seus afazeres" o que trouxe a seca ao povo grego. (Adoro a terceirização dos problemas e das consequências dos nossos próprios atos contada em historinhas pelos gregos). Opa! Vamos lá... Sem perder o foco... 


Zeus, num lampejo de sabedoria, percebeu que tinha sido autoritário demais e negociou essa situação nada constrangedora com seu irmão Hades que Perseps passaria metade do ano com seus pais na Terra e a outra metade com Hades no submundo. Como vocês percebem, Perseps só se fode... Não tem autonomia nenhuma... E há quem diga que nossa sociedade, não é nada machista, patriarcal ou... Opa! Foco...

Quando Perseps estava com sua mãe, esta estava tão happy que cuidava das suas obrigações e a terra produzia alimentos e quando Perseps estava no submundo a terra secava, devido à tristeza de sua mãe. Ninguém gosta de trabalhar chateado não é? Já dá para pegar essa sabedoria grega e meter o louco no trabalho rs. Mas enfim, o que toda essa treta quer simbolizar na mitologia são as quatro estações do ano, entre muitos outros arquétipos.

Assim, Persephone por passar metade do ano no mundo dos vivos como uma eterna adolescente e a outra metade no mundo dos mortos como rainha deste, ela pode ser associada à dualidade da personalidade humana. E é aqui que mora meu assunto favorito! Seres humaninhos, seus comportamentos, seus desafios e, principalmente, seu caminho de evolução através dos relacionamentos.
Deslumbrada por mitologia grega, não vejo outra forma de ver a vida senão com um tom de relatividade, por um olhar persephiano que vive dois mundos totalmente diferentes, que intercaladamente vive a realidade e a ilusão. Nossa vida é uma eterna peripécia persephiana. 


Hoje (05/07/2018), ao resgatar este blog, reescrevi todo este texto. Você provavelmente irá notar uma grande diferença de tom entre os meus textos, afinal são nove anos de jornada, entre resgates e abandonos deste blog. Não que eu seja dada a ter diferentes fases, mas eu sou um serzinho extremamente mutável. Ah e se pá, tenho fases como a lua mesmo rs. Estou numa fase bem lunática, segundo uns amigos, mas há boatos que isso é culpa do meu ascendente em peixes.

Espero que gostem, que deem gargalhadas e que brisem e que, principalmente, se emocionem rs.



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Persephone pelos outros

Desenho por Julio Leote

Primavera
Dedicado a Aline Zanin               

    Lembro que eu costumava gostar de dias frios. Tenho essas memórias de um garoto de pijama verde: Pijama novo em folha com um quê de aristocrático ou burguês que por alguma razão desconhecida me remete hoje a aqueles trajes de ajudante de Papai Noel nos especiais de Natal que infestam dezembro. O garoto está metido debaixo de quilos de cobertas. Bem agasalhado e protegido dos rigores do clima, do mundo, da vida. Travesso, enfia a cara no travesseiro. O desenho da fronha é a bandeira da Inglaterra completada por duas raquetes de tênis. (Deus salve a rainha!). Sobre a montanha em que está confortavelmente soterrado como uma espécie de adorno um edredom com desenhos de personagens da Disney. Mickey Mouse, Goofy and Donald Duck caracterizados como marinheiros (estivadores pra ser mais exato). Mais tarde aquele garoto, já quase um homem, viria a se perguntar como diabos poderia ser verdade e não fábula um homem erguer um império com um rato, um cachorro e um pato desregulado. Mas isso seria muito mais tarde, aliás "Cedo" e "Tarde" naquela época eram palavras que ainda não faziam parte do dicionário. O garoto se levanta. É sábado, ele corre pra abraçar a mãe, tomar café com leite, comer biscoitos de chocolate e assistir desenhos animados deitado no sofá.
     Hoje aquele garoto acorda certas vezes as seis e outras ao meio dia, encaracolado na própria espinha vertebral... coberto por um cobertor velho e um pijama verde e velho que mal lhe entra mais. Está deitado sobre um travesseiro macio como um tijolo cuja fronha provavelmente deve ser não mais que os trapos de uma das bandeiras britânicas da segunda guerra. As raquetes de tênis ainda estão lá. Ele abre os olhos e amedrontado se depara com os personagens da Disney fitando-o de um velho edredom que hoje serve de cortina à indiscrição da janela... O garoto se levanta, e não há mais mãe, leite, café, bolachas de chocolate, desenhos animados. De repente tudo sumiu. Ele não sabe se tudo não passou de sonho, uma recordação de infância, ou um excesso de licença poética derramada em mais um espasmo proustiano. Eu odeio dias frios.
     E então um dia esse senhor dos mortos, esse Hades meio-abacanado já de pé caminha por sobre seus próprios pés, por esse mundo tão morto, tão quente, mas tão frio; esse céu de clima desregulado, por essa era glacial elétrica e luminosa, sem saber se ele mesmo está vivo ou morto. Sem saber o que é estar vivo. Mas eis que na curva extrema do caminho extremo, trôpego sofre o acidente de percurso mais belo de sua vida. Encontra Perséfone; essa pérfida Pandora descida de algum Olimpo. E por uma única noite ele não foi o figurante da vida ou astro escandaloso de uma pseudo-tragédia. Eles conversam essas coisas eruditas tão tolas, e outras mais amenas e perspicazes. E olham as estrelas, fitam os deuses enbriagados cantando em uivos guturais e melodias distorcidas do topo do Párnaso. E ele pensa mil coisas ao lado dela, e de repente afoga todas suas inseguranças, todas as suas certezas pra mergulhar no calor de um abraço. E já não importa o se é real ou mais uma quimera. Tudo que importa é o calor. Ter calor. Ter o calor obscuro negado nesse mundo tão frio, tão claro.
E no outro dia o garoto acorda. Tudo se foi. Os deuses, a magia, o som e a bebida. O que lhe resta é um porre homérico, dor no pescoço, um rato, um cachorro e um pato desregulado. Ele se vira para o lado e abraça a bandeira de um país desconhecido. E tudo se foi. Tudo se desfez. E tudo morreu. E tudo mofou. Não existe calor. Essa palavra jamais fez parte de qualquer dicionário. Ele contempla a aurora fria de um inverno eterno; de um mundo empedernido na tempestade branca de sua solidão. Teria tudo sido mais um devaneio? Mera licença poética de quem agora ele se põe a contar e destruir com vulgaridades? Ou terá sido apenas um sonho?
É o homem que desperta de seu longo hibernar. Tudo se foi. Encarna um Camus às avessas. A utopia não está a sua medida. Ele diz então a si mesmo que é irreal, apenas um bom sonho. Vai passar. Mas utopia não passa, e de bom sonho em bom sonho, lá fora são os homens que vão passando. E só os sonhos restam. Levanta-se e desnuda a janela, e então agora já completamente desperto ele percebe: É primavera no mundo dos mortos...


Por Davide di Benedetto