O Porquê de Persephone



Como todos me perguntam: "Por que Persephone?" "O que é Persephone?". Resolvi criar esta página apenas para falar sobre minha paixão por Persephone (deusa grega), de onde surgiram o nome e o objetivo deste blog.


Persephone é uma deusa grega que na literatura representa a deusa da poesia iâmbica, que de uma forma bem simples e leiga podemos associar ao riso. Na mitologia da Grécia Antiga, ela era a filha da deusa Deméter (deusa da agricultura) e de Zeus. Por sua beleza, despertou o interesse do deus Hades (deus do "submundo"). Zeus concedeu sua filha a Hades que levou-a para seu reino subterrâneo. Triste pela separação, Deméter, sua mãe, apenas chorava e não cuidou de "seus afazeres" o que trouxe a seca ao povo.


A fim de acabar com esse problema, Zeus negociou com seu irmão Hades que Persephone passaria metade do ano com seus pais na Terra e a outra metade com Hades no submundo. Quando Persephone estava com sua mãe, a terra produzia e quando estava no submundo a terra secava, devido à tristeza de sua mãe. Isso na mitologia explicava as estações do ano para os gregos. Assim, Persephone por passar metade do ano no mundo dos vivos como uma eterna adolescente e a outra metade no mundo dos mortos como rainha deste, ela pode ser associada à dualidade da personalidade humana.


Deslumbrada por mitologia grega, não vejo outra forma se não discutir e refletir sobre esses temas senão com um tom de relatividade, por um olhar persephiano que vive dois mundos totalmente diferentes, que intercaladamente vive na terra e no "inferno". Nossa vida é uma eterna peripécia persephiana, descer ao inferno e voltar à realidade terrena... que também não é um mar de rosas...


Acho que é isso... ver tudo por dois lados, pelo sagrado e pelo profano, refletir sempre, crescer, erudir-se, conhecer mundos diferentes antes de decidir ficar preso no "mundinho" onde nascemos... o mundo está aí pra ser explorado e mais que isso precisamos criar nosso próprio mundo...


**********************************************************************************
Contribuições de amigos sobre "Aline-Persephone"

Desenho por Julio Leote

Primavera
Dedicado a Aline Zanin               

    Lembro que eu costumava gostar de dias frios. Tenho essas memórias de um garoto de pijama verde: Pijama novo em folha com um quê de aristocrático ou burguês que por alguma razão desconhecida me remete hoje a aqueles trajes de ajudante de Papai Noel nos especiais de Natal que infestam dezembro. O garoto está metido debaixo de quilos de cobertas. Bem agasalhado e protegido dos rigores do clima, do mundo, da vida. Travesso, enfia a cara no travesseiro. O desenho da fronha é a bandeira da Inglaterra completada por duas raquetes de tênis. (Deus salve a rainha!). Sobre a montanha em que está confortavelmente soterrado como uma espécie de adorno um edredom com desenhos de personagens da Disney. Mickey Mouse, Goofy and Donald Duck caracterizados como marinheiros (estivadores pra ser mais exato). Mais tarde aquele garoto, já quase um homem, viria a se perguntar como diabos poderia ser verdade e não fábula um homem erguer um império com um rato, um cachorro e um pato desregulado. Mas isso seria muito mais tarde, aliás "Cedo" e "Tarde" naquela época eram palavras que ainda não faziam parte do dicionário. O garoto se levanta. É sábado, ele corre pra abraçar a mãe, tomar café com leite, comer biscoitos de chocolate e assistir desenhos animados deitado no sofá.
     Hoje aquele garoto acorda certas vezes as seis e outras ao meio dia, encaracolado na própria espinha vertebral... coberto por um cobertor velho e um pijama verde e velho que mal lhe entra mais. Está deitado sobre um travesseiro macio como um tijolo cuja fronha provavelmente deve ser não mais que os trapos de uma das bandeiras britânicas da segunda guerra. As raquetes de tênis ainda estão lá. Ele abre os olhos e amedrontado se depara com os personagens da Disney fitando-o de um velho edredom que hoje serve de cortina à indiscrição da janela... O garoto se levanta, e não há mais mãe, leite, café, bolachas de chocolate, desenhos animados. De repente tudo sumiu. Ele não sabe se tudo não passou de sonho, uma recordação de infância, ou um excesso de licença poética derramada em mais um espasmo proustiano. Eu odeio dias frios.
     E então um dia esse senhor dos mortos, esse Hades meio-abacanado já de pé caminha por sobre seus próprios pés, por esse mundo tão morto, tão quente, mas tão frio; esse céu de clima desregulado, por essa era glacial elétrica e luminosa, sem saber se ele mesmo está vivo ou morto. Sem saber o que é estar vivo. Mas eis que na curva extrema do caminho extremo, trôpego sofre o acidente de percurso mais belo de sua vida. Encontra Perséfone; essa pérfida Pandora descida de algum Olimpo. E por uma única noite ele não foi o figurante da vida ou astro escandaloso de uma pseudo-tragédia. Eles conversam essas coisas eruditas tão tolas, e outras mais amenas e perspicazes. E olham as estrelas, fitam os deuses enbriagados cantando em uivos guturais e melodias distorcidas do topo do Párnaso. E ele pensa mil coisas ao lado dela, e de repente afoga todas suas inseguranças, todas as suas certezas pra mergulhar no calor de um abraço. E já não importa o se é real ou mais uma quimera. Tudo que importa é o calor. Ter calor. Ter o calor obscuro negado nesse mundo tão frio, tão claro.
E no outro dia o garoto acorda. Tudo se foi. Os deuses, a magia, o som e a bebida. O que lhe resta é um porre homérico, dor no pescoço, um rato, um cachorro e um pato desregulado. Ele se vira para o lado e abraça a bandeira de um país desconhecido. E tudo se foi. Tudo se desfez. E tudo morreu. E tudo mofou. Não existe calor. Essa palavra jamais fez parte de qualquer dicionário. Ele contempla a aurora fria de um inverno eterno; de um mundo empedernido na tempestade branca de sua solidão. Teria tudo sido mais um devaneio? Mera licença poética de quem agora ele se põe a contar e destruir com vulgaridades? Ou terá sido apenas um sonho?
É o homem que desperta de seu longo hibernar. Tudo se foi. Encarna um Camus às avessas. A utopia não está a sua medida. Ele diz então a si mesmo que é irreal, apenas um bom sonho. Vai passar. Mas utopia não passa, e de bom sonho em bom sonho, lá fora são os homens que vão passando. E só os sonhos restam. Levanta-se e desnuda a janela, e então agora já completamente desperto ele percebe: É primavera no mundo dos mortos...


Por Davide di Benedetto

Um comentário:

  1. Oi Aline! Não sabia onde comentar, então vim aqui na apresentação.
    Aqui é a Ana, lá do coletivo literário do sesc. :)

    Eu vou comentar seus textos, inclusive esse da primeira página, mas outra hora *pingando de sono aqui*

    Achei legal você usar o nome "Persephone" :D
    No meu blog/ nome de internet uso "Hel", que também é uma deusa mitológica. ^_^

    Em fim, legal conhecer você e seu trabalho literário!

    Em breve apareço com mais reviews.
    Abraços.

    ps: se quiser add no msn - anahel_black@hotmail.com

    ResponderExcluir

Licença Creative Commons
This work is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 2.5 Brasil License.