sexta-feira, 13 de julho de 2018

G (Sol Maior)

Foto/Reprodução: Instagram

Já pensou como se propaga o som? Como as cordas de um violão se oxidam? Ambos ocorrem num espaço vazio, denominado tempo.

Tempo na música é algo bem determinista. É o que dá o ritmo, mas nunca o tom. E o que fica depois  que o tempo passa é o tom. Para o tom, o tempo é algo bem relativo.

A impressão que a música deixa depende muito de quem a toca. Tocar um instrumento é tocar pessoas. Tocar uma música é tocar os próprios sentimentos.

Durante muito tempo, onde eu ia, meu violão ia comigo. Eu dava festas em casa e tocava violão. Eu tocava violão nas festas da faculdade. Eu levava o violão pra praia, pro parque.

Depois que eu processei o luto do meu avô paterno. Eu não pude mais. E até ontem eu não sabia bem o porque.

Hoje ao tocar violão eu vi a mão do meu avô ao fazer um G. Não era minha mão, era a mão dele fazendo um G.

Como pode depois de dez anos, eu ainda lembrar com detalhes da mão do meu avô? As unhas, os dedos, as veias, a pele.

Geneticamente é fácil de entender, minhas mãos são idênticas a do meu pai que, por sua vez, tem as mãos iguais a do meu avô. Mas o que as mãos fazem é o que a gente mais lembra.

Mãos que tocavam violam comigo. Mãos que me deram meus bonecos de super herói favoritos. Mãos que me levavam na pracinha pra brincar, jogar bola e ir no pula pula.

Mãos que abriam a bíblia pra me ajudar a fazer as lições do catecismo, que me davam chocolates. Mãos que acenavam a contar histórias e mais histórias. Sorria. Eu lembro de cada gesto, cada sorriso.

Eu demorei um tempo para entender que hoje, tocar violão ainda é sentar do lado do meu avô. Naquela tarde de sol, onde só a presença bastava dividindo um violão.

Eu consigo ouvir o pé dele batendo no chão pra ritmar a música. Eu posso sentir o cheiro do taco. Tocar virou um ritual de reencontro.

G de Sol Maior é também G de Geraldo. Avô paterno a quem dedico esse texto.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Presença

Foto/Reprodução: Instagram

Estar presente permite você ver duas araras azuis voarem juntas no meio da cidade de São Paulo. Abre seus olhos pra ver uma mãe fazendo bolhas de sabão com suas duas filhas pequenas. É observar um casal fazendo yoga. Os cachorros vindo cheirar sua canga. As crianças jogando bola.

Há tanta vida na presença.

Estar presente te permite ver o reflexo do sol na água. Ver a água se mover com a brisa. Ser água. Se inundar de tudo isso. Abre seus olhos pro contraste do céu azul com os prédios. Te permite ouvir o som das folhas tocadas pelo vento. Ver as folhas se desprenderem. O tempo mudar. O sol se esconder atrás das nuvens. Presenciar tudo isso e se diluir num tempo que não existe.

Há tanta poesia na presença.

Estar presente é apenas ser. Deixar ser. Amar quem somos. Nos sentirmos em paz com nossa própria presença. É tocar nosso Deus interior. Respeitar o Deus do outro. Perceber toda a divindade ao nosso redor. É fluir com tudo isso num uníssono movimento de amor. É olhar pra dentro. Se olhar de fora. É perceber que não há nem dentro e nem fora. Que somos todos um único universo que flui.

Há tanta liberdade na presença.

Estar presente é deitar na grama. Tomar chuva. Sentir calor. Sentir frio. Observar as nuvens passando enquanto respira. Ouvir o som dos pássaros, sentir o cheiro da terra molhada. Ser picada por mosquitos. É ser nuvem, ser vento, ser terra, ser sol. É se inundar do mundo.

É fluir

No amor da existência

Plena.

sábado, 7 de julho de 2018

Vênus em Sagitário

Foto/Reprodução: Instagram

Procuro uma Vênus em Sagitário pra dançar na chuva.
Pra viajar o mundo físico e o mundo da mente.
Pra abrir os dedos na jaca depois que já tiver feito tudo sem pensar.

Procuro uma Vênus em Sagitário pra me jogar de cabeça.
Pra sair de bike por aí sentindo a brisa no rosto e o barulho da roda cortando o ar.
Pra rolar na grama úmida e dormir com a cara no sol.

Ah! Eu vou sem medo! Sem medo da intensidade, sem medo da intimidade.

Sou Vênus em Sagitário e gosto de sorrir juntos de mãos dadas.
De dar pulinhos de alegria só porque estamos vivos depois de atravessar a rua sem olhar pros lados.
De cantar pagode no karaokê e dançar axé anos 90 no carnaval.

Sou Vênus em Sagitário e preciso de espaço pra ousar todas as minhas fantasias.
Pra entrelaçar nossas almas e mesmo assim continuar sendo livres.
Pra planejar roteiros e sonhar os cenários mais impossíveis.

Ah! Eu vou com minha flecha no meio desse campo ensolarado te caçar.

Procuro uma Vênus em Sagitário pra divagar sobre os assuntos mais aleatórios.
Pra me encantar por tudo que ainda desconheço.
Pra dormir abraçado e acordar flutuando.

Procuro uma Vênus em Sagitário pra ouvir samba e jogar frescoball na praia.
Pra curtir indie rock e fazer piada num pub bebendo mais do que deveria.
Pra fazer amizade no fumódromo e flertar com o desconhecido.

Ah! Eu vou de coração aberto, com um sorriso no rosto e uma flor atrás da orelha.

Sou Vênus em Sagitário e sei como viver fora da mesmisse.
Sei fazer do improviso e surpresa a nossa rotina.
Gosto de sentar na beira do lago, ler um livro e perceber que somos só energia.

Sou Vênus em Sagitário e vou mudar os caminhos todos os dias.
Vou por uma mochila nas costas e desbravar todas as suas emoções.
Pra experimentar novos temperos e aprender novas línguas.

Ah! Eu vou e não volto.

Procuro uma Vênus em Sagitário pra enfiar a mão dentro do saco de feijão.
Pra dançar sem música, cantar na tristeza e chorar de alegria.
Pra andar descalço, dormir nua e sujar os dedos de chocolate.

Procuro uma Vênus em Sagitário pra olhar pro alto e filosofar sobre a vida.
Pra me orgulhar do seu trabalho, sua ética e generosidade.
Pra conhecer todos seus grupos de amigos, sua família, sua história.

Ah! Eu vou seguir minha intuição, te procuro pelo cheiro da emoção.

Sou Vênus em Sagitário e gosto de assistir o nascer do sol.
De escorregar na cachoeira e deixar as borboletas pousarem na minha mão.
De brisar sobre a lua, ronronar com os gatos e muitas plantas em casa.

Sou Vênus em Sagitário e posso cuidar da sua bagunça.
Deixar você organizar minhas lembranças e ressignificar minhas dores.
Ascender um incenso e encher a casa de livros e cores.

Ah! Eu vou sonhando até tropeçar em você.

Procuro uma Vênus em Sagitário pra chorar assistindo filme.
Pra ficar triste porque nosso seriado favorito acabou.
Pra dormir numa barraca pra ver a aurora boreal na Islândia.

Procuro uma Vênus em Sagitário pra exagerar o fim do mundo.
Pra escrever poesia, tocar violão e torcer pelo nosso time.
Pra nunca deixar nossas crianças dormirem.

Ah! Eu vou sentindo saudade antes mesmo de te conhecer.

Sou Vênus em Sagitário e não me preocupo com nossas obrigações.
Eu quero ouvir Chico Buarque e ir no show do Radiohead.
Quero deixar a vida fluir e fluir com a vida fazendo yoga.

Sou Vênus em Sagitário e só sei fazer carinho desajeitado.
Adoro deixar bilhetinhos na mesa e compartilhar as refeições.
Espero encontrar corações na geladeira e te fazer cócegas de manhã.

Ah! Eu dormiria e acordaria todos os dias com essa metamorfose apaixonante.

Procuro uma Vênus em Sagitário pra escalar vulcões e fazer bolhas de sabão.
Pra virar a noite acordada e dar uma volta pela cidade.
Pra visitar exposições e se expor um ao outro.

Procuro uma Vênus em Sagitário pra casar na Tailândia.
Pra ter um filho e colocar ele nas costas pra fazer trilhas na Amazônia.
Pra ensina-lo que amar é ser livre. E que ser livre é se amar.

Ah! Eu ainda vou te encontrar...

Na astrologia, Vênus é o planeta que rege os relacionamentos, a sensualidade, a forma de nos vestir, o nosso corpo físico, especialmente o tato. Definição bem leiga do conceito astrológico, meu ponto era falar da Vênus em Sagitário.

terça-feira, 3 de julho de 2018

Um Dedo de Café e uma Dose de Afeto

Foto/Reprodução: Instagram

Hoje eu acordei com vontade de tomar café e comer um pedaço de queijo branco. Quem conhece minhas origens vai pensar "que desejo mais comum para uma mineira".

Mas esse café e esse queijo tinham um nome. Esse café tinha aroma de cuidado e o queijo tinha gosto de gargalhada.

Hoje eu só queria sentar naquela mesa pra ouvir ele dizer que era só eu tomar café pra minha faringite melhorar. Pra ver aquela mão cortando o queijo e ouvir ele dizer que logo logo ia passar.

O mais engraçado é que desde minha adolescência, toda vez que minha faringe apertava eu tomava um golinho de café.

Hoje, dois anos sem faringite, com a faringe começando a apertar, o café não desceu. Veio junto com o cheiro do café a saudade, os dedinhos de prosa, as festas, os bailes e as risadas. Veio também todas as vezes que ele, com toda a paciência do mundo, me ensinou a embrear o carro.

Eita que o coração apertou demais. Tanta lembrança, tanta alegria, tanto acolhimento, tanto cuidado, tanto aprendizado.

Na falta da presença, o que me conforta é que pessoas de bom coração nunca partem. Elas continuam para sempre em cada coração que elas tocaram.

E assim seguimos, cada um de nós, com cada lembrança e saudade que cada ente querido deixou.

Preencho a falta da presença com a gratidão por esse espaço de amor que ele deixou.

De tudo que ele me ensinou, o maior aprendizado, foi saber escolher pessoas de bom coração, como ele, para fazerem parte da minha vida.