terça-feira, 19 de janeiro de 2016

It's not a poem, it's not a letter, it's a gift. It's me... Truly nude for you, my Mirror

I'm a bit slow to realize what happens around me because I'm always trying to connect to myself... Sometimes it's not easy... Specially because I used to loose myself when I love someone... It's so easy to be enchanted for you... I got in a point that I need to find myself. It doesn't mean I don't like you... Actually it means I love when you make me smile...

Sometimes I think about how world can be so rude and so sweetie at the same time... Maybe loving is learn how to lead with these opposite sides and keep being always strong, not being vulnerable. Fairy tales don't exist. For a long time I dreamed about a prince. You seemed to be him... And it was so easy to believe it... In a 'distant' world you could show me just the good things and me too... Also I could see just what I wanted to see...

During all this time you helped me to learn so many things including to recover the belief in myself... That I can do anything I want... But what I want? I need to find this answer... I put my backpack on my back two years ago to find myself... I started a journey that didn't show me almost anything... I came back home, tried meditation, yoga, volunteer work, addopted a pet... I still couldn't find an answer... I met you, you were so misterious...

Playing, laughing, guessing, dreaming... I smile just to remember that time... Truly with my heart, it's a such good feeling! I though it was a dream... That would never come true... It was too perfect to be real... It was confortable don't take risks... One day the dream came true... Fuck! You shuffled my two separated worlds... Reality and fantasy... What a hard lesson to learn, what a hard lesson to teach... But... I love learning event thought smetimes it's painfull...

I was so excited, also so affraid... I remember when you asked me if I was affraid or excited... I answered both... Yes, as you shuffled my worlds, both feelings were shuffled inside me... It was amazing... It was weird... We had lots of fun, I felt uncortable sometimes and you gone back to your place...

Once I proved your taste, I started to feel a constant frustation... When I wanted to say something I missed the words because it wasn't my idiom... I wanted to look at your eyes... I wanted to touch you, dance with you... Nothing was possible. I had to look at the mirror to show me to you, I had to search something inside me to be abble to wait for you. In the first moment, I didn't like what I saw... So many marks, regrets, fault, fear... But you still could make me smile so many times...

However, fairy tales don't exist and when you were truly distant, I mean, not being present it was pretty hard to support everything I had discovered about myself... To lead just with my reality that was being so rude... I used to be helped with your interest... That time it was so hard to understand what was happening... I had to learn to respect limits and silence... A big challenge for an overthinker like me...

Both worlds I always kept separated was getting more and more shuffled... Fuck! Should I leave again? I decided to stay. It was so hard because everything was changing around me... I lost myself again trying to find myself through you... But this time I didn't loose myself for completly... It was impossible as it was impossible to touch you... People say that some people learn valuable things through a 'distant' relationship... Well, it makes sense...

Many times I wondered where were you... Couldn't find you... You told me to pretend you were here... I found only myself.. Had to learn to love myself... Accept myself for whole including my dark side that was full of insecurity, jealous, fearful, shame...

A time of playing, laughing, guessing, dreaming started again... What a relief! I though that I had made the right decision to stay waiting for you... But everything was changing around me started to change so much fast... I got so stressed I just wanted that perfect world of fantasies I couldn't touch anymore... If you had asked me if I was affraid or excited to see you again I could answer I was terrified... I've never been good to touch the reality...

Well, I don't need to say anything... I couldn't be myself for whole... Took only the side I just had discovered and went to meet you... (I finally can laugh of myself now) And boom! When I came back home my world was even more different... I got into a drama... (I'm laughing again) and when I couldn't support my sadness anymore I took my backpack again and decided to keep the track I quit two years ago... With no plans, no dreams though.

I walked lots, stayed alone, struggled to be social, cancelled the few steps I had planned, changed my course, decided to do just what I wanted to do, realized what reality could offer me... Fuck! Something magic happened... For 30 years I felt like a stone with flowers around me... I found out I'm actually a flower that always dressed a stone to be safe... If I could draw, I can remember the moment when the flower in my heart was showed meanwhile the stone was left...

The stone was left because the flower is not vulnerable... I don't need a hardness anymore... I'm not affraid about the future, I'm not regret about the past... I just spread love and joy to be myself... At the same time I want to live even more the reality... And here lives the last drop of frustation... Live the reality means leave you or make a big change to build a reality with you. I need to know what I really want for my life.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Linguisticamente possível, humanamente inviável

k e g em em pares distintivos:
meu ego vive pelo seu eco...
Na verdade, traços distintos:
um cala. O outro grita.
Velar plosiva.

Alcançam o ápice quando:
não distinguem mais a diferença dêitica entre EU e VOCÊ.

Uma língua com complexo sistema de pronomes possessivos
Pode ser sua expressão pelo amor não-possessiva?

Ambiguidade dos pronomes na dêixis.
Um acordo fiduciário firmado
entre um surdo e um mudo.

Não estava no dicionário.
O que era significante?
Qual era seu significado?
Não havia consenso...

Sentença relativa com dois sujeitos.
Sujeito composto:
objeto subjetivado.
Sujeito oculto:
sujeito objetivado.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Sobre a saudade


Gosto de pensar sobre o significado das palavras... Saudade é uma palavra que me intriga. Primeiro, porque há inúmeras definições e nenhum consenso (como todo sentimento). Segundo, porque sua transliteração em outros idiomas trazem semas extremamente divergentes de cultura para cultura, como se fosse algo totalmente diferente de ser humano para ser humano. E finalmente, porque quase sempre está associada à falta.

Penso, que sim, não há porque haver consenso. Porque a saudade é a própria falta. E a falta que cada um sente é a falta que lhe cabe. E daí, jamais será a mesma pra qualquer um. Talvez seja a sensação de estar plenamente vazio. Vazio de lembranças. De esperanças. Inteiro. Inteiramente incompleto. Estranhamente feliz, estranhamente leve. Como uma brisa que traz uma poeira que é deixada e trazida a cada metro percorrido. Como uma poeira que vira lama. Como uma poeira que cega. Como uma poeira que assenta. A mesma poeira, mas com uma capacidade imensa de transformação. Mas ainda assim, ser a mesma poeira.

A saudade é aquilo de tudo que restou antes que se fosse, já não nos lembramos mais do que gostavávamos de lembrar. Fica apenas uma indefinição. A mesma indefinição de antes de ter existido. Antes podia ser. Agora, já não é mais. A saudade é sempre o buraco da alma que a gente procura alguém/algo pra nos habitar. O erro é sempre associar a saudade a um objeto no mundo. Não! A saudade é apenas falta. Falta daquela poeira que é você mesmo, que hora é lama, hora cega, e hora assenta. É por isso que rostos se apagam com o tempo e cheiros permanecem...

Penso que saudade é fome, ausência é que falta de apetite. Na falta de sentido, pra que se alimentar? Saudade... come-se na esperança de sobreviver até preencher a falta. Falta de algo que existe. A falta é o que nos faz caminhar. É a certeza de que há algo bom pra nos habitar. Ausência não. Ausência é o não existir. Aquilo que não dói, mas também não abre o apetite. É ausência da própria falta. Ser completo. Completo de não ter porque se alimentar. Completo de falsas completudes.

A saudade só vem daquilo que é reciclável. De tudo que se vive, há sentimentos que são tão inutilizáveis que são como lixo orgânico. Fedem. Inapropriados. Inaproveitáveis. A vida é uma coleta seletiva. O tempo todo juntando restos do que valeu a pena. Do que pode ser reaproveitado. Do que vale a pena ser revivido. Revivido apenas em sua essência, mas em outras formas, outras cores, outros lugares. Essa é a magia e o porquê de tudo acabar.

A saudade é isso, apenas essência de alguma coisa. A sensação que nos causou. Onde, quem, quando e como são apenas definições. A marca de fato, é o que você não define. É o que você traz, sem saber de onde, de quem, porquê, antes mesmo que algo existisse. É a falta, é o que te move. É um suspiro, uma intenção, uma intuição, um não sei porque mas vou me atirar na lama, deixar que a tempestade me cegue até que a poeira se assente, e eu comece tudo novamente.

domingo, 22 de maio de 2011

in Felicidade


tava esperando a tristeza chegar pra fazer uma seresta. Ela chegou e estou muda. Eu realmente acredito em definições por oposições. É possível em meio a felicidade sentir um golpe de tristeza?

Felicidade é sempre algo externo. Sempre parte antes que você se despeça. É sorte, e não merecimento. É gozo. Não tem como prender, simplesmente se esvai. Mas nem por isso, todo gozo traz felicidade.

Tristeza já é algo interno. Só cresce. Se você não cuida te apodrece. Se você não poda o inverso perdura. É lágrima. Você até pode prender, mas quantas mais são presas, mas te enchem. Até que você se esvai e não é num gozo.

Em meio a felicidade, há sempre uma tristeza no olhar de cada um.

domingo, 3 de abril de 2011

Campanha nem lá nem cá

A todos campanhenses que saíram de casa

Foto por Radamés Ajna da Silva
Meu maior erro foi sair de casa trazendo fotos. Me agarrei às lembranças por achar que elas me diriam quem eu sou. Mas não, justamente por elas, não sou ninguém. Eu precisava ter vindo vazia, nua, aberta. Agora não sou ninguém, nem aquela nem essa. Nem mineira, nem paulistana. Uma mistura dos dois e ao mesmo tempo nada. Tinha que ter vindo sem nada, como um cão enxotado de casa. Ter morrido na partida e nascido na chegada. Mas vim meio viva, meio morta. Viva de alegria pelo novo, viva de esperança pra encontrar um lugar melhor. Viva de anseios, viva de medo.

E essa cidade mesmo cinza, sem estrelas, sem aquele cheiro de mato, não me assusta mais, na verdade nunca me assustou... Eu vim pra cá foi pra brigar mesmo! O que me incomoda mais aqui é a poluição sonora... Nem é a sujeira das ruas, o ar impuro, o rio podre ou o trânsito caótico... É a falta de silêncio mesmo... Essa cidade às vezes me sufoca, parece que quer me expelir. Eu resisto, luto bravamente... Fico. Mas às vezes sou eu quem quero fugir... Mas vou fugir pra onde? Eu já não estou em lugar nenhum... Estou sempre no meio da estrada, no meio do caminho... Perdida entre lá e cá. É uma sensação de estar perdida no limbo. Ou eu vivo o ontem ou eu vivo o amanhã. O hoje nunca existe...

Mas vim meio viva, meio morta. Morta de saudades. Morta de sonhos. Às vezes mato a saudade, ou melhor, me mato. Porque pra matá-la, só acabando comigo ou ela não voltaria assim que chego do outro lado da estrada. Saudade tem quantas vidas? Ela sempre ressuscita... Mas o que me incomoda mesmo não é a saudade de cá ou de lá, é essa vontade de estar em dois lugares ao mesmo tempo. De me dar para os dois e não estar em nenhum. O que me incomoda mesmo é a certeza de que qualquer que seja o lado, na outra margem sempre haverá reclamação. E eu fico ali suspensa no limbo, nem lá nem cá...

segunda-feira, 21 de março de 2011

Passageiro


é mesmo isso? depois do perdão vem a saudade?
e se a saudade vem, o abraço vem também?

eu colho pedras nas ruas pra preencher o vazio
mas pedras são frias... e não se acomodam bem.

a saudade chama a lágrima?
e a chama não se apaga?
espera um abraço... espera um pouco...

e as pedras continuam no bolso...
no caminho vem o riso, vem o choro, vem o espanto...

se passa? os pés vão adiante...

a saudade é um aperto que eu não quero sentir
me aperte apenas se for com um abraço...

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Risque outra vida


Riscou seu último fósforo pra acender o cigarro. A angústia da espera. Fumava aquele cigarro como se quisesse engolir o mundo. Uma fome desesperada de viver tudo como se fosse a primeira vez. Brasa e cinzas na ponta de seus dedos que não podiam mais desenhar o futuro. Na brasa, a esperança. Na cinza, o tempo perdido.

Tudo ali fora estava calmo, pensava que por isso deveria estar em paz também. Mas não funcionava assim. O determinismo não era uma regra, por mais determinado que quisesse ser. Implodiu a fumaça no peito. Faltou-lhe ar pra soluçar. Faltou-lhe lágrima. Faltou-lhe tudo. As cinzas não se desprendiam do cigarro. Eram inertes à gravidade. Não sabia pra onde ir... Só um nó na garganta.

Tragava na esperança de preencher o vazio da alma. Era tarde. Faltava fogo em casa. Ascendia um cigarro no outro. Faltava calor. As lembranças o consumiam. O amor acabou. A dor um dia também se foi. A dor deixou saudade. A saudade trouxe esperança. Esperança trouxe sonhos. Sonhos remetiam ao passado. Entregava-se ao vício de fumar.

Sabia que ainda estava vivo porque sonhava. Mas estava cansado de viver de sonhos. Sentia-se perdido no limbo. Ou vivia o ontem, ou vivia o amanhã. O presente jamais existia... Cultivava a ideia de que éramos frações um dos outros. Enxergava-se cheio de falhas. Sempre incompleto. Custou a aceitar que tudo era finito e eterno. Entendeu que só seria completo pelas lembranças que carregava. Desistiu de esquecê-las. Era impossível.

Tragava. Prendia. Expirava. A fumaça dissipava. Mas fica o cheiro, o gosto, os dedos amarelos. Desistiu de suspirar. Jogou o maço de cigarro fora. Respirou fundo e resolveu caminhar com o relógio até que a brasa cessasse. Carpe diem1!

1. Expressão latina popularmente traduzida como "colha o dia" ou "viva o momento".

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Sobre qualquer Coisa


Coisa: A palavra mais vazia de significado e mais plena de sentidos.

Não menospreze os acasos, a dúvida que gera o erro geralmente é o que mais nos excita.
A vida é isso aí, dói, deixe-a ser. É uma corda solta.
Numa ponta, a saudade. Na outra, uma ponta de desejo.
Salte pra qualquer sorriso que lhe cause arte...

Nunca faça algo esperando retorno, isso não é bondade, é vaidade!
Não queira transformar ideias em realidade, sua vida só será um plágio mal feito delas.
A ansiedade é a medida do desencantamento, estraga a espera.
Espera! A sorte é o cuidado dos detalhes...

Ando com vontade de usar flores atrás da orelha. De andar com passos leves...

Viva a morte

Tinha medo da morte. Não da morte em si. Mas dos segundos de consciência que a antecediam. Percebeu que estava ficando velho quando se preocupava mais com seus pais do que seus pais com ele. Preocupou-se por não ter filhos. Assustou-se quando os pais de seus amigos começaram a morrer, a consciência lhe mostrou que seus pais não eram heróis, muito menos imortais.

Mas o que poderia fazer com o tempo? Amanhã acordo com 70 anos - pensou. E só tinha 26. Tudo passava rápido demais. Seu primeiro luto foi aos nove anos. Avô materno. Não sentiu muito. Desconhecia o que era a morte. Na inocência da infância era apenas uma saudade perpétua. Aos 16, veio seu segundo luto. Seu padrinho de batismo. Com esse veio a lágrima. A lágrima de culpa, da certeza de impotência perante o tempo. Da incapacidade de mudar o passado, da impossibilidade de pedir perdão aos mortos.

Na adolescência a morte tomou forma. Assombrava-o. Tinha medo de morrer antes de amar. Tinha medo de ser morto. Tinha medo de ir pro inferno. Vez ou outra, chorava de medo de seus pais morrerem, outras vezes, desejava que morressem. Ah... a adolescência é a própria morte! Veio seu terceiro luto. Matar alguém dentro de si. Perguntou-se quantas vezes aquilo iria se repetir na vida e desejou morrer.

Vida adulta. A morte agora era branda. Entendeu que era o ciclo natural da vida. Morrer aos poucos todos os dias. Agora tinha as chaves de casa. Mas não tinha as chaves de seu coração. Coração povoado de moribundos e cadáveres, um verdadeiro cemitério de ilusões desfeitas. Morava sozinho. Nem sempre a vida era como ele imaginava. Mas nem por isso desejava morrer. A idade agora lhe mostrava que por egoísmo preferiria morrer antes de seus pais, mas por heroísmo, tinha que morrer depois deles.

Por egoísmo, também preferiria postergar um pouco mais a morte pra aproveitar mais a vida. Mas esse não era seu caso. Antes a dor do luto que a sensação de uma manhã vazia. Evitava acordar cedo aos fins de semana para não ter um longo dia de solidão. Era difícil conviver com aquelas lápides dentro de si. Aquilo o gelava de dentro para fora. Parecia um morto. É isso que a vida faz: Te mata

lentamente...

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Macaréu

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sm Grande vaga que, na foz de alguns rios, anuncia o começo da preamar.
 
Colocou os óculos escuros. Há tempos não se perguntava se devia ir ou ficar. Pedro tinha sérias dificuldades em perdoar. Você acredita que há limite entre o amor e a loucura? Pedro não. A dificuldade começa pela falta de consenso sobre o que é loucura. O amor é consensual, a loucura não.

Pedro estava indo de encontro ao seu maior medo. Sua pior/melhor lembrança... Ele hesitava, já fazia um bom tempo que não se viam... Enfim, ele domou o medo e foi, afinal, já se considerava lúcido o suficiente... E jaz aí, mais um conceito em que Pedro cansava-se de seu bom senso e pedia a Deus pelo senso comum.

Ao chegar à avenida, o primeiro ônibus a passar não lhe servia, e ele já começou a pensar que fosse um sinal de que não deveria ir. Embora nada supersticioso, Pedro buscava justificativas para não se sentir tão covarde. Mas antes que concluísse este pensamento, passou um ônibus que o levaria de encontro a si mesmo.

Ele subiu a ponte que sobe todos os dias para ir ao trabalho. Passou sobre aquele rio fétido, podre, mórbido. Se perguntava se aquilo tinha fundo. Passou, fechou os olhos e prendeu a respiração. Dizem que assim você pode ter a impressão de que o tempo está passando mais devagar. Mas até quando Pedro conseguiria postergar seus sinais vitais e o ponteiro do relógio?

Desceu do ônibus. Mais 100 passos para dois anos de culpa. Não é uma boa ideia, ainda posso desistir - pensou. A angústia foi tomando cada vez mais espaço dentro de si até que se tornaram um só e antes que novamente adoecesse deu o primeiro passo.

Lá estava ela. Bem mais bonita que há dois anos. Foi com as pernas moles e o coração duro. Abrir um sorriso? Dar um abraço? Apertar suas mãos? Ou selar um beijo no rosto? Três anos na mesma cama era agora como o sol e o mar que jamais se tocaram. Parou diante dela e disse: Oi.

Ainda não entendia o motivo daquele encontro. Mas pra que buscar motivos agora pra uma vida que nunca teve razão? Passava o dedo na mesa molhada pra ter certeza de que aquilo não era ilusão. Ela parecia tão bem. Sorria. Você está mais magro. Está no mesmo trabalho? Terminou a faculdade? Vontade imensa de ser grosso, responder-lhe que não tinha mais nada com sua vida e que ainda não se conformava de tê-la ido encontrar.

Mas ele precisava daquilo. Era preciso saber até onde aquilo o impedia de continuar. Resolveu fazer o melhor de si como se aquilo fosse uma nova conquista. Como se estivesse conhecendo alguém. E estava. Eles não eram mais os mesmos. Era como o Blood Mary que ela tomava e seu Curaçau Blue. Não combinavam.

Aos poucos foi se soltando. Percebeu que tinha vivido algo sozinho. Que havia culpado alguém por uma loucura que era só sua. A angústia foi virando lucidez e a loucura foi virando saudade. Por fim, sorriu. Descobriu que loucura passa. Amor não.

ma.ca.réu2
sm O encontro das águas do Rio Amazonas com o mar chama-se Pororoca. Esta é uma grande onda de maré alta que, com ruído estrondoso, sobe impetuosamente rio acima, apresentando uma frente abrupta de considerável altura, perigosa à navegação, e que depois de sua passagem forma ondas menores, os banzeiros, que se quebram violentamente nas praias; macaréu.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Uma carta à Loucura

 
Preciso de uma dose de loucura. Alguém tem uma garrafa dessas sobrando em casa? Eu não consigo viver do que é palpável... Sempre tive bons amigos que me seguraram nas curvas dos meus devaneios. Me espanta o fato de que agora eles são os primeiros a me incentivarem a me jogar do precipício.

Sempre achei que no meu círculo social só apareciam pessoas exóticas... designers, poetas, putas, neuróticos... Sempre me diverti com eles. Putas também amam e loucos também podem ser boas pessoas. No fundo eu sou um pouco de tudo isso, sou um pouco de todos eles. A verdade é que ninguém é influenciado por aquilo que não temos uma "tendência" a nos tornarmos... Atraímos aquilo que nos faz bem. Ou não.

Deixei nas mãos dos meus amigos a minha loucura. Cada um guardou um pedaço dela pra que ela não me destruísse... Mas acho que eles acabaram bebendo um pouco dela também. Os vejo mais loucos que eu. Eles, que eram minhas rédias e meu cinismo diante de minhas próprias ilusões. Devolvam minha loucura! Vocês querem me empurrar guela abaixo o que um dia já foi meu. Mas eu não quero isto que vocês estão me devolvendo. Isto agora é de vocês.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

E por fim, a sobremesa

Oferta do dia: Romeu e Julieta 5,85. Bem casado 7,59. Esses malditos valores quebrados que tentam passar a impressão de que você pode pagar menos do que algo vale, quando na verdade pagamos muito mais do que aquilo nos custa...

Mais uma vez, o garçom retira os restos esfrangalhados da mesa. Pedaços mutilados depois de uma farta ceia. A mesa vai ficando vazia aos poucos... De tempos em tempos vem uma mão sem rosto retirando o que resta. Por fim, vão-se até as últimas migalhas.

A mesa fica limpa. Outro casal se senta e a mesa está novamente farta.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Independência x Liberdade


Nasci não-livre. Nasci triste. Desde cedo aprendi a lidar com as burrocracias criadas por homens estúpidos que não tinham amor, ou se tinham, este havia virado rancor. Se há algo que me chateia é resolver burocracias diárias e atingir metas que não foram estipuladas por mim mesma. Pois bem, crescer faz parte do processo de se frustrar com o mundo e com si próprio. Até uma certa idade achamos que os culpados de sermos presos são nossos pais. Vem o anseio de sair de casa. Pensei erroneamente que ser independente deles me tornaria livre.

Mera ilusão! Independência e liberdade são palavras não sinônimas, sequer parecidas, e totalmente antagônicas. Quando você se torna independente você simplesmente se torna prisioneiro de si próprio. Você vende a sua liberdade para o primeiro que o faz acreditar na sua própria ilusão. Porque você aprende desde cedo que tudo tem um preço. Você troca sua liberdade por independência achando que assim será mais livre... mas não... você agora está preso às obrigações que lhe garantem a independência, e portanto, preso! Mas eu não quero viver num mundo que me segure, eu preciso de alguém que me empurre...

Ah! Essa caminhada é tão cansativa... Mas não é só feita de frustrações. Você cria um mundo a parte da sociedade. Ama na poesia, inventa um novo mundo na música. Sente o que é vergonhoso de sentir em público no seu mundo interior... Decora com as palavras e acordes que lhe bem agradam... Hoje eu vejo o quanto a necessidade burocrática, burguesa, idealista e frustrada da sociedade como um todo me podou de chegar ao meu plano superior. Retardou passos que nem por isso eu deixei de trilhar... No final das contas, troquei as frustrações de meus pais pelas minhas próprias frustrações... Mas ao menos agora elas são minhas, e eu faço com elas o que eu bem entender... Eu canto!

Me mostre alguém livre e lhe mostrarei alguém alienado de sua própria condição.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O salto


Um dia eu perdi o medo de voar, resolvi saltar de asa delta. Eu não conhecia o instrutor, mas ele me olhava de uma forma que eu não precisava temer. O risco era alto... Na subida me passavam mil coisas pela cabeça, percebi que teria que ser na impulsividade, porque a dúvida vez ou outra pairava entre os pensamentos, e a ingrata me excitava... Antes de me jogar, sem que ele precisasse me dizer, eu sabia que não era certo onde iríamos pousar, havia apenas a previsão de um ponto quase incerto em que iríamos nos despedir. Eu tive que correr para dar impulso e nessa hora foi preciso muita coragem pra tirar os pés do chão. De repente, ele não estava mais sob os meus pés... Eu demorei pra soltar os braços e a surpresa de não ter onde me segurar me impediu de sentir o vento no meu rosto logo no começo. Ele continuou sendo um desconhecido mesmo tendo compartilhado comigo um momento em que eu senti quase todas as emoções possíveis naquela hora: medo, ansiedade, liberdade, angústia... Perto de chegar do chão, eu percebi que tinha deixado um pedaço de mim diluído no ar e que tinha trazido um pouco de alguém que eu continuava sem saber quem era. Que agora me despertava uma curiosidade melindrosa e uma saudade distante quase sem  lembranças. Ao tocar a terra firme, minhas pernas estavam trêmulas e eu não tinha mais uma mão pra me segurar... Eu olhei pra cima e não consegui me ver e até agora não sei onde descemos, só de onde saltamos...

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Rue de La Fortune

Brasileira foi internada na França por alucinações. Será deportada em 15 dias, visto não ter nenhum conhecido ou parente próximo neste país. Se alguém conhecê-la, contate o serviço de imigração. A senhora afirma ter reencontrado naquele lugar um velho amigo de adolescência a fim de se casarem. Testemunhas afirmam que a mesma estava bêbada abordando um famoso escritor italiano no Café Les Deux Moulins.

Naquela tarde fazia frio. Mas não era somente um frio ambiente, estava congelada por dentro. A impotência diante do tempo.
Viver ali há cinquenta anos longe de todos não era fácil. Mas naquela idade em que se encontrava, não havia mais nenhum conhecido vivo no Brasil, além de seu irmão caçula que também já estava por falecer.
Todas as tardes ela caminhava até o Café, sentava-se na mesa e começava a ler. Entre as páginas que ela passava podia-se notar as lágrimas que escorriam e manchavam o papel amarelado. País gélido. Ninguém se incomodava com suas lágrimas. Ninguém perguntava se ela estava bem, apenas se desejava algo mais. E se ela pudesse pedir algo, seria uma dose de lucidez ou como tantas noites em casa já havia ligado no delivery, pediria um abraço.
O que a mantinha viva naquele lugar era se agarrar todos os dias ao que o resto do café podia lhe dizer no fundo da xícara. Ela ainda tinha forças pra se alimentar. Os flocos de neve eram como as gélidas lembranças que vagueavam sua memória. Era o que a mantinha viva. A existência do que já fora. O passado era tão distante. Por vezes ela tinha o devaneio de tentar descobrir em que lugar da Itália morava seu escritor brasileiro preferido. Ela se encontrava descrita nos seus textos. Era outro fato que a fazia sentir-se viva, menos sozinha no mundo. Devaneios... mas que a faziam respirar, e no mais dos tempos, suspirar!
Domingo. Cinco da tarde. Nos seus tempos de adolescente ela assistiria qualquer programa da TV brasileira e criticaria. Numa fase mais madura assistiria filmes. E mais pra frente, se tivesse os tido, levaria os filhos pra passear no parque. Logo, hoje, ela também não leva os netos que não teve. E, por isso, todos os dias ela se questionava nesse Café: Por que não ter sido trivial? Ao menos não estaria aqui sozinha me agarrando às fantasias até hoje...
Há tanto tempo ela não sentia tanto frio. Aquele parecia ser o dia mais frio de toda sua vida no continente europeu. Quando a porta do café se abriu e entrou um senhor de sobretudo marrom, meio curvado com uma pasta na mão ela não sentiu apenas o frio na pele. Ela sentiu um frio dentro de seu ventre. O café ficou mais doce, porém mais gelado. E o doce que já era doce chegava a ser enjoativo. Ela não saberia descrever aquela sensação como nunca soube descrever o que sentira por aquele homem a vida toda.
Ele se sentou numa mesa frente a ela. Mas era como se a não percebesse. A mulher da cafeteria abrira a janela e pequenos flocos de neve invadiram o espaço. Por alguns instantes acreditou que o vira. Sim! Ele! O detentor de suas maiores fantasias da adolescência. Mas logo percebeu que os flocos de neve eram apenas geladas lembranças de uma história que nunca havia ocorrido no plano real, apenas nos contos, nos poemas, nas crônicas. Mas eles estavam ali, aos 70 e poucos anos, será que não era a hora?
Ela se perguntava até que ponto era real sua paixão por aquele escritor. Ela tentava reviver na sua memória, a sua adolescência. E se aquele escritor de fato era aquele jovem com quem trocara tantas licenças poéticas. Teve certeza, hesitou, até que em um momento pode perceber que ele a olhou com olhar assustado e ao mesmo tempo incerto.
Ela tomava seu café e fitava-o. Ela mal acreditava, não podia ser... depois de tanto tempo, tantos planos. Quando moravam no Brasil marcaram dezenas de encontros e não conseguiam se ver. Seria possível o melhor acaso de sua vida? Seria tudo tão poético assim? Tão profético? Ou tão trágico... Ela não se conteve e foi conversar com ele. Ele não a reconhecia. Ela insistia.
Ele jamais a esquecera e por várias vezes tentara encontrar seus passos, enviar-lhe cartas, mas tantas tinham sido as mudanças na vida de ambos, que ele preferiu mantê-la em seus textos. Nos textos que ela lia e se sentia viva. Ele também não queria acreditar naquele instante, não podia admitir isso. Por que só agora aos setenta anos e tão longe do Brasil?
Ele gostou da idéia de não reconhecê-la e ouvi-la contar todos seus devaneios, todos seus encontros e desencontros. Aquela explosão de sentimentos da velha amiga inflava seu ego apodrecido pela falta de amor. Ela tentava convencê-lo mais convicta de que seu nome era Ana que o dele era Cadu. Ela munia-se do espírito adolescente de outrora e contava-lhe em pormenores com todo entusiasmo os seus planos e suas lembranças:
Ana: Sim! Era um dia tão frio quanto esse... era o máximo de frio que podia fazer no sul de Minas Gerais... o Brasil não era tão tropical assim a primeira vez que subimos ao Parnaso... A Perséfone sentia algo por Hades que ela não conseguia explicar. Era inverno. Era com ele que ela deveria estar, assim como hoje, mas a Primavera sempre os separava... Você não se lembra?
Ele apenas sorria e continuava a escrever no seu bloco de anotações. As pessoas ao redor cada vez mais notavam o descontrole de uma senhora de 70 e poucos anos que começava a se portar como uma garotinha de 15, tamanho entusiasmo...
Ana: Por que você não diz nada?
Cadu: Porque eu não sou quem você está pensando.
Ana: Claro que é. Aliás, porque você nunca publicou nossas cartas como havíamos combinado assim como os contos?
Cadu: Porque eram...
Ana: O quê? Viu! Você é quem eu estava esperando!
Cadu: Minha cara senhora, tente se acalmar, devo ser muito parecido com esta pessoa que está falando, mas acredite, eu sou inglês, moro na Itália há dois anos e jamais estive no Brasil, muito menos na minha adolescência.
E ele sorriu. E não pense que foi um riso de “você é louca”, mas sim um riso de “sim, eu estive lá, me lembro muito bem e não acredito nesse momento, não acho justo.”
Ana: Sim! Eu me lembro muito bem da primeira vez que o vi. Eu tive uma impressão tão torta de você! Você parecia querer chamar a atenção de todo mundo. E eu parecia querer chamar sua atenção mesmo que não devesse. Não sabia bem porque queria, se era porque você estava roubando a minha cena ou porque a sua atenção era o que me importava. Enfim, não faria diferença, as condições não eram propícias. Mas estamos aqui aos 70 e poucos anos como planejamos em tantos devaneios poéticos.
Cadu: Que livro está lendo? Deixe-me ver?
A mão trêmula dentro de uma luva grossa, que impediu o toque das peles tão esperado, entregou o livro.
Cadu: Você quer um autógrafo? Aqui está uma dedicatória para você na última página.
Ana: Por que na última página? Não importa.
Balançava a cabeça de um lado para o outro apoiada com os braços na mesa e batendo os pés no chão, aumentava também seu tom de voz:
Ana: Eu quero que você admita que é o mesmo Carlos Eduardo que conheci há 55 anos. Não sei por que está me torturando dessa maneira.
Ela não entendia aquela indiferença. Eles estavam ali por um acaso. Todas as escolhas que haviam feito durante mais de 50 anos não importavam mais.
Ela não se conteve a mais uma implosão. E como na primeira vez que o vira, quis chamar a atenção de todos. Era indecoroso para uma senhora daquela idade, mas ela chutava as cadeiras, derrubava as mesas e arremessava os copos contra a parede. Dentro de minutos ela foi levada por perturbar a ordem pública. Foi constatado que ela sofria de alucinações.

Como ela não tem parentes nem conhecidos nesse país, o governo francês a deportará para o Brasil, seu país de origem, aproveitando a passagem encontrada dentro do livro que carregava.

Desistiram do café e depois de poucos minutos, a segunda garrafa de vinho já havia acabado. Seus olhos se cruzavam com mais doçura e desejo a cada gole. As mãos trêmulas se tocavam e os olhos pesados da idade se fitavam enchendo-se de vida novamente.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Hora da morte 12:26


Abri os olhos: Consultório 04 senha 252. Ainda não era a minha vez. Nem daquela senhora que acabara de estatelar-se no chão quatro filas de cadeira à minha frente. 57 pessoas presenciavam o espetáculo da vida em decadência. Já ouvi por aí que não há dignidade na morte, pesquisei e descobri algo chamado "Constitucionalidade da Morte Digna", mas de que vale a Constituição, se nem vida digna ela garante?

Poucos minutos antes eu pensava sentada e infeliz, o meu número ser chamado no painel de procrastinação da morte: Aquele garoto com um anel de cada cor em três dedos da mão, tenho certeza que em dois anos será traficante. Aquela de macacãzinho de veludo roxo, aposto como só está fazendo manha pro namorado. E esse casal senil que me desperta nojo, também ainda me causa piedade. Ela tão gordinha e ele tão magro. Ambos mal vestidos. A botina dele despejava terra no saguão do hospital e eu maldosamente pensava: Pobres, tão pobres, como podem ter um plano de saúde? Será que são os filhos que pagam para eles? Porque definitivamente eles já não podem trabalhar nessa idade, ou pelo menos não deveriam, pensava eu com um pouco de benevolência que ainda me restava pelo próximo. Cansei de observar o mundo. Ainda faltam 30 números pra que eu seja chamada, vou me permitir cochilar.

Senha 252 no painel e o médico que chamara esse indivíduo que atende pelo nome de 252 veio ao saguão ver porque ninguém entrava. Todos apáticos, apenas uma garota de aproximadamente 24 anos veio ao encontro do médico pra dizer-lhe que uma senhora acabara de desmaiar. Secretárias, faxineiras, enfermeiros, seguranças, ninguém se mexia. Apenas o senhor que derramava terra no saguão correu para socorrer a mulher que caira de bruço no chão. Eu acabava de abrir os olhos, estava com preguiça de interagir, respirar... e principalmente de observar o que acontecia, mas não pude deixar de perceber aquele velho médico, cabelos brancos mas pele lisa, olhos claros e gordo com olhar cansado, blasé e amargo balançando a cabeça e olhando no relógio sem emitir som: Hora da morte 08:55.

Passava "As aventuras do Pinóquio II" na TV e eu não sabia qual era a maior das mentiras naquele dia: se era eu escrevendo este texto fingindo que me importava, se era as manhas da garota de macacão roxo que realmente podia estar doente ou se era aquela senhora fingindo de morta pra chamar atenção e finalmente ser atendida.

Consultório 01 senha 264. Só me resta dormir. O tempo não passa, já são 10:35. Minha cabeça dói. Foi por isso que vim aqui. Mal consigo abrir os olhos. O mundo é muito feio e agride minhas retinas... Ainda faltam 18 números para serem atendidos. Me deixo dormir e espero que ninguém desmaie novamente pra chamar atenção e atrapalhe meu sono.

Eis que finalmente eu fui atendida, e como já dizia uma amiga minha: "eles não estão nem aí com a hora da sua morte, muito menos com a sua doença." Passei exatamente quatro minutos na consulta em que o médico sequer tocou no meu corpo. Sim, a consulta não durou nem 1% do tempo despendido naquele hospital. A única certeza com a qual saí daquele consultório é de que eu deveria esperar mais alguns instantes no saguão para ser medicada. Como sei que vai demorar, me permito dormir mais um pouco para não ter que observar que aquela menina de 12 anos tão magra já deve ter anorexia pelos padrões difundidos pelo "Beautiful way of life".

Inferno! Tum tum tunturum tum tum tunturum... que assovio frio... Quem inventou e disponibilizou músicas temas de filme para toque de celular? Ou melhor, por que esse infeliz não colocou o celular no silencioso? Estamos em um hospital oras... Eu acordei gelada com uma dose de adrenalina e a primeira imagem que vinha na minha cabeça era de uma enfermeira loira, gostosa, cabelos lisos, como essas dolls que se vê aos montes na rua hoje em dia, todas com mesmo número de fabricação e mesma quantidade de formol dizendo 282 com uma voz sexy.

Finalmente despertei com o barulho de passos. Eu estava sentada na última fileira e atrás de mim havia um corredor vazio que o simples bater de asas de um mosquito podia emitir eco. Toc Toc o barulho do salto alto ecoava na minha cabeça e não mais no corredor. Lembrei, então, que eu já estava há meia hora na fila de medicação. Ainda doía minha cabeça, mas a adrenalina de acordar com The Killer's Song era tanta que eu só podia imaginar que poderiam injetar vaselina em vez de dipirona mais decadron na minha veia.

O painel de medicação mostrava meu nome: 282, olhei no relógio e já eram 12:26.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

O rótulo

No início sente-se a necessidade de rotular. O padrão das novelas midiáticas de romance italiano infestam a cabeça dos adolescentes e você precisa definir o que sente, rotular o que vive, como se você e suas experiências fossem padronizáveis. Você começa a entrar em crise porque é simplesmente impossível padronizar pessoas diferentes, no máximo é possível gerar um nivelamento em que ainda há muitas divergências...

E as mocinhas assistem às novelas... e elas querem aquela paixão conturbada, flores e bombons todos os dias... A TV mostra o fútil, e elas acreditam que o fútil é a mais pura demonstração do verdadeiro amor... E vão se tornando cegas... Elas acham lindo ciúme exagerado... elas querem viver como numa novela... Por favor, desliguem a TV.

Alguns mocinhos, acreditam apenas no primeiro encantamento, há meninas que também perdem o resto da vida achando que apenas a primeira garrafa de vinho é capaz de embriagar e não bebem mais... Mas já dizia uma amiga minha que é impossível viver sóbrio... e você acaba experimentando outras coisas... uma vodka que só lhe rende uma puta dor de cabeça no dia seguinte... um mojito que não te faz flutuar mas refresca um dia de calor... às vezes toma um whisky mesmo que é pra esquecer tudo que já tomou e não valeu a pena...

De tanto experimentar bebidas diferentes você vai se desprendendo da maldita ideia de rotular as pessoas e os relacionamentos, outros infelizmente não, insistem na ideia de viver contos dignos de Benedito Ruy Barbosa e passam o resto da vida infelizes. Alguns se acostumam com a ideia de apenas engarrafar o vinho pra guardar as lembranças... sem rótulos... Estes começam a aprender como degustar um vinho... e, de fato, a desfrutar da vida.

Ah... Mas quem não sucumbe aqueles rótulos bem feitos? Feitos exatamente pra criar necessidades desnecessárias? Aqueles que se você tirá-lo da garrafa ninguém a compraria porque seu conteúdo está mais para um suco de uva mofado? É meu amigo... Rotular ou não rotular? Comprar com rótulo ou sem rótulo?

Nade...

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A colheita

Não há escolha sábia das uvas para o melhor vinho. Processos mecanizados na produção do vinho não fazem diferença no tilintar de uma noite fria... Nem sempre as mais belas uvas servem o mais fino vinho.

A colheita ja é, na verdade, uma etapa posterior a várias outras etapas iniciais, como o preparo de si próprio, a escolha do terreno a se frequentar... Você colhe e coleciona figurinhas e monta seu próprio "ideal". A partir deste ideal, seleciona possíveis videiras onde encontrá-lo. Mas nem sempre as melhores uvas produzem o melhor vinho. Há tantas etapas e transformações envolvidas que você não pode controlar... e quando menos espera está entorpecida e flutuando com um vinho barato ou com um gosto de guarda-chuva na boca com um Cheval Blanc 1947.

Dizem que como a uva possui enorme influência sobre o sabor do vinho, a colheita precisa ser feita no tempo certo. Uma colheita prematura resulta em um vinho aguado, com baixa concentração de álcool enquanto uma colheita tardia, produz um vinho rico em álcool, mas com pouca acidez. Qual é o tempo certo? O solo há ainda de influenciar nas uvas, e por consequência no vinho...

Sim, você tem acesso a bons vinhos procurando por marca e safra. Mas a quintessência do vinho depende mais do que sua escolha, mais do que um processo perfeito de fabricação. A quitessência está muito mais relacionada a ser escolhido, a se deixar entorpocer e se envolver numa química que você próprio não explica e que nenhuma análise laboratorial minuciosa seria capaz de desvendar.

E assim é, você procura a perfeição mas descobre que a perfeição é monótona. A paixão realmente lhe pega pelos defeitos, descobre que é a acidez do vinho que o faz gostar do doce do vinho. Porque se o vinho fosse apenas doce, em apenas um copo você enjoaria. Descobre que a pressa estraga tudo...estraga o gozo, estraga a espera. Um vinho aberto antes da hora não embebeda, uma uva colhida antes da hora não fermenta... Um vinho passado do tempo vira vinagre, amargo como lembranças engavetadas de uma história que jamais pode ser.

Enquanto o vinho está confinado em barris e você não tem o poder de escolha, resta embriagar-se com outras bebidas pra que o copo não fique vazio. Você experimenta enquanto isso marcas chulas, vinhos que não entorpecem, outros apenas pelo rótulo... Enquanto o tempo não lhe permite tomar o vinho certo as coisas são mais fáceis. Duro é a hora de virar o último gole ou abrir a primeira garrafa. Girar o vinho na taça e sentir seu aroma... ah! a espera... Fechar os olhos e aos poucos virar aquela taça que você saliva de imaginar o sabor nunca provado... Enfim toca sua língua, e nesse momento você descobre que não pode mais viver no mundo real. Bem-vindo ao mundo de Dionísio...

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O Vinho



Era como se ele sentisse sede... e eu também...
Pode alguém sentir medo de matar a sede? Estávamos temerosos como se pudesse ser o último gole ou uma garrafa cheia em que pudéssemos nos afogar...

Dizem que a nostalgia é algo bom, que nos dá esperanças de viver algo tão bom quanto o que nos deixou saudade... algo tão bom quanto... e não necessariamente a mesma sensação porque cada momento é único em si. Já disse Aquiles, é por isso que "os deuses nos invejam porque somos imortais e o que torna nossa existência prazerosa é a unicidade de cada momento".

Pois bem, você sente saudade de um tempo, às vezes se pergunta "e se..." mas já não lembra com detalhes e com o tempo desiste de perder seu tempo se perguntando "e se..." Às vezes você pode experimentar o gostinho do passado e diferentemente de todas às vezes que você tentou resgatar aqueles sentimentos e a sua sensação foi a mais vazia possível de pensar que não era como antigamente, você gosta mais do que antes e entende porque a saudade jamais passou...

É como se agora o vinho estivesse mais doce, não embebedasse e muito menos causasse ressaca...

O Segundo Gole...

Talvez Horácio não tivesse razão ao dizer que devíamos filtrar o vinho em vez de decantá-lo, o tempo sim, pode torná-lo mais doce, mais suave, mais viciante... Mas nem por isso menos entorpecente, ao contrário do que eu imaginava. Mas o que fazer com a sede? Com a sede que só aumenta após o primeiro gole? Talvez estivesse certo Cazuza ao dizer que "Se eu pudesse guardava tudo numa garrafa e bebia de uma vez..." Nada descreve minha vontade melhor que esta frase. É como se eu precisasse esvaziar a garrafa, torcê-la até a última gota, e como Horácio defendia, não me preocuparia com o amanhã: "carpe diem quam minimum credula postero."

Mas eu tenho medo do amanhã... não pelas consequências do que eu fiz... mas pelo que eu não fiz... No fundo eu me preocupo e planejo pequenas doses homeopáticas para que seja eterno... Mas não é possível ser ponderado com Dionísio, este jamais conheceu qualquer forma de inibição, e eu, que geralmente não penso pra falar, ao cultuar esse semideus, a situação fica um pouco pior. Além de não pensar pra falar, os raros pensamentos que eu tento manter em silêncio, exalam como o álcool e eu acordo me perguntando por que fui tão etérea...

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Falsos Democratas


Espanta-me a capacidade preconceituosa do ser humano e nessas horas eu tenho vontade de dizer: "tenho preguiça das (algumas) pessoas". O resultado da eleição presidencial tem revelado o quanto o povo brasileiro ainda é preconceituoso e conservador, e o pior de tudo, xenofóbico! Será que as pessoas ainda não perceberam que o extremismo não leva a nada? Que rótulos, generalizações e estereiótipos são um erro? Eu estou tremendamente horrorizada com o que tenho lido. Após o resultado das eleições fiquei com uma sensação de que a guerra não acabou e que a qualquer momento algo muito ruim pode acontecer como o episódio em que jovens (não quero expressar meu nojo em adjetivos de baixo calão) atearam fogo no índio Galdino. Juro que eu imaginava que depois do resultado instauraria a paz, porque eu não aguentava mais posts de cá e de lá "vote no Serra porque x", "vote na Dilma porque y" sem contar na lavação de roupa suja entre os partidos que não estão mais preocupados em fazer política de verdade (nunca estiveram) mas agora está mais explícito o vale tudo para se eleger.

Não vou mentir que continuo com medo. A vitória da Dilma não me deixa segura, mas me deixa aliviada, enquanto se o Serra ganhasse a sensação seria medo, medo, medo e preocupação. Mas jamais atacaria o povo brasileiro dizendo que quem elegeu o Serra é um bando de pessoas manipuladas pela rede globo, pela veja ou pelo instrinseco egoísmo do ser humano. Vivemos em uma democracia e a vontade da maioria deve ser respeitada. Eu acredito que muitas das pessoas que votaram no Serra, sim, são essas pessoas que não tem opinião própria, mas outras, estão apenas defendendo os seus direitos e opinião, o que não deixa de ser "justo" porque infelizmente ainda vivemos num país muito desigual e cada um vai querer "defender o seu".

O que me chateia mesmo é apenas a falta de respeito, a falta de união, a falta de solidariedade, a falta de conhecimento, a falta de engajamento, a falta de pesquisa, o excesso de racismo, o excesso de preconceito, o excesso de manipulação, o excesso de analfabetos funcionais que se dizem elite intelectual, o excesso de egoísmo. Confesso que não sou militante para nenhum dos partidos e que sequer votei em algum dos candidatos nessa eleição porque acredito que nenhum deles fosse qualificado, mas posso ser supreendida, como fui supreendida pelo Lula. De qualquer forma, acho que o que falta para essas pessoas que estão atacando de forma injusta, ilógica e sem motivos grupos que eles acreditam ter elegido a presidenta do país, abrir um pouco a cabeça, estudar, ser mais crítico e principalmente pesquisar mais. O que eu tenho visto é muita asneira na internet como:
1 - "O mesmo povo que elegeu o Tiririca elegeu a Dilma."
2 - "Nordestino vota na Dilma para não morrer de fome."
3 - "Elegemos mais uma vez um bando de corruptos do PT, dos sem terra."
4 - "O feminismo só podia dar em merda."
Quem lê um pouquinho que seja consegue perceber que quem escreveu isso não tem noção do que está falando ou se tiver deve estar com o cotovelo muito mordido e perdeu a capacidade de raciocinar.

O fato na verdade é mais triste do que podemos imaginar. A igualdade está aí para quem quiser experimentar, nunca usufruímos de tamanha democracia como temos hoje e isso faz o povo esquecer do passado, cria gerações mal acostumadas, gerações que não fizeram nada para usufruir dos direitos que possuem hoje. Resumindo: uma geração que nasceu podendo falar não sabe gritar. A democratização dos direitos que estamos vivenciando com o governo Lula deveria ser motivo de festa mas só é motivo de retaliação. Ela pode não ter sido feita da melhor forma, mas nunca foi feito algo para que se minimizasse a discrepância social do país, o que víamos no governo do PSDB era apenas mais e mais desigualdade social. Recriminam o governo Lula pelos casos de corrupção, mas apontem qual governo não teve corrupção, eu morrerei esperando uma resposta.

Creio que democracia e preconceito não combinam.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

A Misteriosa Máquina Humana


Um peso enorme pairou sobre minhas costas e meu corpo começou a ficar dormente. Percebi que ia ficar imóvel, na verdade já estava. Fazia uma força imensa pra me mexer, mas era impossível, era como se houvesse toneladas em cima de mim, não pesava, mas me tornava imóvel. Lutava entre dormir e acordar, estranhamente tentei me entregar ao sono e também não consegui.

O desespero foi tomando conta da minha mente a partir do momento em que percebi que eu não podia controlar meu corpo, que podia sequer obedecer a minha própria vontade. E nesse momento eu precisei lutar comigo mesma, ou com aquela energia que tentava me fazer sucumbir.

Podia ser um sonho ruim, mas eu estava consciente. Quando consegui recobrar o autocontrole, ou pelo menos, a sensação de perceber e modificar o que estava acontecendo comigo, notei que meu coração estava mais acelerado do que o de costume, aliás de uma forma que me assustava. Demorou um pouco, mas eu respirei fundo, calmamente, para que meu coração voltasse a bater na velocidade "normal". E foi neste momento que percebi que ainda não podia me mexer.

Pânico! Eu precisava me acalmar ou meu coração dispararia novamente. Eu precisava me mexer mas forçar meu pensamento para comandar o corpo a fazer isso desviava minha atenção do coração e eu tinha medo que ele saísse correndo novamente.

Percebi nesse dia que eu não era capaz de controlar meu próprio corpo e que se dependesse de mim todo o sistema entraria em colapso, porque eu não saberia controlar todos meus órgãos ao mesmo tempo.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Olhos recicláveis

Mesmo tendo habituado meus olhos a verem só o que eu quero, às vezes me escapa o filtro, e acabo vendo aquilo que todos fazem questão de não enxergar: os homens invisíveis, as crianças invisíveis, as mulheres invisíveis. Estes só tomam forma quando lhe roubam o sossego ou por um descuido do olhar...

17:45, dia ainda claro, uma rua do Itaim Bibi... Pela calçada a maioria dos homens estavam engravatados e as mulheres de tailleur. Pela rua passavam alguns carros populares e muitos carros de luxo. Um dia normal, num lugar cotidiano...

Estava parada num ponto de ônibus, prestando atenção nos carros que vinham, meio zonza com o movimento até que um utilitário torto, desbotado, fazendo barulho parou ali. Saltou dele um garoto magrelo, moreno, muito magro, com movimentos bruscos dos membros e um chinelo escorregadio no pé, talvez uns quatro números maior que seu pé... me causava repulsa... e só.

Aquela cena me incomodava... destoava... mas logo passou... depois de recolher todas as caixas de papelão que estavam no lixo, com os mesmos movimentos bruscos, o chinelo torto e a camisa furada, o garoto entrou no utilitário, bateu a porta e com um arranco saiu dali.

Pisquei os olhos e o filtro se instalou novamente... continuava a esperar o ônibus que veio em alguns minutos...

Entre uma Santa Fé, uma Vera Cruz, um Audi Q7 e uma BMW M3, lá estava a chevrolet C10 1970 com uma carroceria de madeira, desta vez com o muleque torto em cima dela, dobrando os papelões que outrora jogou ali dentro.

E agora já não me causava repulsa... mas indginação.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Ser Inquieto

Meu pensamento está titubeando entre "As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase" e "O que nós vemos das cousas são as cousas. Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?". Qualquer que seja o impasse o fato é que penso demais...
Talvez pensar seja um erro... Talvez não pensar também... O outro fato é que pensar sobre a humanidade não leva a lugar algum... O ponto é esse... Pense sobre tecnologia, economia, saúde... Mas não pense nas intenções... Por mais que ao primeiro abrir de olhos já haja uma intenção, não perca tempo com isso... O jeito é enfiar o pé no acelerador e sair vivendo... Mas já abriram minha cabeça à forceps!
Às vezes me sinto esquisofrênica, medindo e calculando passos, prevendo estratégias, analisando palavras, expressões, cores... Tudo pra ver se consigo chegar às intenções... Mas nem mesmo sei quais são as minhas... Talvez haja uma variável inexplicável, talvez nem tudo tenha lógica e possa ser sistematizado... E aí José? Oh meta ousada!


terça-feira, 3 de agosto de 2010

Autossabotagem



Nessa busca infinda por equilíbrio, tentei muitas vezes encontrá-lo, não fui bem-sucedida, me desequilibrei... Não era o que eu buscava... Parece que eu preciso viver nos extremos. O equilíbrio é que me entristece. Seja triste ou seja alegre, tudo que eu tenho certeza é que precisa ser intenso. Porque o que nos faz sentir vivos é a tensão, a dor de estar vivo.

E ainda nesse caminho do meio termo, muitas vezes me perdi nos outros, pelos outros, pelos meus objetivos, no mundo... Deixei de ser simples, deixei de ser humana e principalmente fraca... deixei de apreciar as coisas mais simples, as que possivelmente me trariam a felicidade, porque quando eu acabar de construir meu castelo... o que vai me faltar senão outro castelo sem utilidade?

Mas quando me olho no espelho às vezes vejo você e me pergunto... Onde você estaria? Quem seria você? Será que nunca aconteceria mesmo? Se a arte imita a vida por que nunca me aconteceu um fato inusitado? Sim, talvez aconteça todos os dias... Tudo está na forma de ver o mundo... E para construir meu castelo, antes de tudo eu construí um muro para que ninguém me atrapalhasse... Será que seria tarde demais derrubar o muro e construir uma grade pela qual eu possa ver o mundo e as pessoas possam ver meu sucesso depois que eu terminar o castelo?

Enquanto isso, você está anos a minha frente, já fez o mesmo percurso que eu ainda estou fazendo... No dia mais improvável você cruza meu caminho, eu estou totalmente despreparada e você me mostra que ainda sou frágil... Despe-me de mim mesma e me mostra quem eu realmente sou, ou melhor, que eu ainda posso ser quem eu quiser, até mesmo quem eu sempre fui... A sua aparência é contraditória e sólida enquanto a minha contradição está em construção. E apesar dessa cortina que você jogou em cima de si mesma, eu consigo enxergar dentro de você e me sinto segura, eu posso sentir quem você já foi, da mesma forma que você me mostrou que sou fraca... Eu estou seguindo o mesmo caminho e estou com medo. É como se agora, se você me desse a mão eu devesse continuar essa estrada árdua e se não, eu devesse derrubar o muro e deixar que as pessoas viessem me ajudar e quem quisesse atrapalhar que ficasse à vontade, pois eu não tenho mais tempo a perder.

Atualmente estou me perguntando até que ponto vale a pena deixar de ser eu mesma para construir meu castelo... Na verdade me sinto um pouco cansada de tudo isso... Sinto medo de meus objetivos não serem de fato o que eu realmente busco, ou mais que isso, que minha busca não é o que me trará felicidade...E descubro que você já tem seu castelo e, mesmo assim, ainda procura a felicidade todos os dias...

Além do muro eu tenho seguranças que no risco iminente do encontro comigo mesma, me preparam uma cilada para que eu faça tudo errado para eliminar qualquer possibilidade de envolvimento. Na berlinda entre a autossabotagem dos meus sonhos ou das minhas metas... Já estou no piloto automático, continuo com as minhas metas cada vez mais ousadas... O silêncio entre nós não incomodava, no fundo revelava quem realmente somos...

... o mesmo ser humano.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O equilíbrio está nos outros

Encontrar o próprio equilíbrio num retiro é fácil, você tem um único padrão: você mesmo. Em sociedade é muito mais difícil. Cada pessoa importante na sua vida contribui para um extremo que você tem que aprender, uma característica que você tem que absorver, um limite que você tem que superar. As referências se formam, e as referências se perdem. Pense no caos que sua vida entra a cada referência que aparece, a cada referência que se vai... Isso não é fraqueza ou falta de personalidade, é crescimento. Pobre daquele que nada aprende com os outros. Passou pelo mundo sem se conhecer, passou pela vida sem se envolver...

Esse é um dos motivos do equilíbrio ser inalcansável, as referências mudam, o mundo muda... o equilíbrio de hoje pode ser o excesso de amanhã...

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A racionalidade da razão



Os últimos acontecimentos da minha vida tem me causado um estranhamento e, às vezes, incômodo principalmente pela falta de naturalidade, de imprevisibilidade e de coincidências. Ao acabar de escrever isso não pude deixar de lembrar sobre o que um professor de filologia românica disse em aula em 2007: "Segurança e estabilidade são ideais de vida burguesa impostas pela sociedade. O ser humano é por sua natureza inconstante." Será que isso é verdade e por isso é tão difícil encontrar uma estabilidade e segurança e quando por fim encontramos não parece ser nada do que procurávamos? Eu arriscaria que a melhor resposta para o que a gente procura é a própria busca.

Percorrendo meu caminho cruzo com muita gente e muitos se destacam. Se destacam quando minha racionalidade aponta qualidades nessas pessoas, se destacam quando meu coração de alguma forma os torna especiais. Encontro almas dispostas a se doarem, às vezes não. Mas ao escrever isso eu tenho que me perguntar: "eu estou disposta?". Não importa para que seria essa disposição, porque a resposta é muito simples. Vida. O resto acontece sem que a gente faça qualquer esforço. Essa naturalidade é o que tem me faltado... Parece que estou procurando razão em tudo, ou pior que isso, agir sempre com razão e quando cheguei a essa conclusão tive que me fazer mais uma pergunta: "até que ponto a razão ajuda e em que pontos a razão atrapalha?"

Já dizia um sábio que "nada é perfeito porque a perfeição é monótona". Quando a gente age sempre com razão procuramos e conseguimos diminuir ao máximo os imprevistos que tornam nossa vida de alguma forma mais misteriosa. Talvez a pior razão seja a razão por si só. A razão que em vez de te fazer melhor, te amarra numa cadeira e diz: "Fique aí!"
Não é viável ser emotivo, mas também não parece ser interessante ser racional. Talvez o sentido dessa contradição seja a fuga do excesso. Talvez a solução pra esse impasse seja a busca do equilíbrio dos excessos, de todos os excessos opostos entre si. E isso de alguma forma corresponderia à infindável busca.

Geralmente quando buscamos algo e conquistamos, ou buscamos seu oposto depois, ou queremos mais do mesmo....qualquer que seja uma dessas atitudes, continua-se no excesso. Seria inteligente viver os excessos opostos e construir-se um novo ser? Talvez seja inteligente, mas não viável... o excesso é infinito, e os opostos sempre provam que há mais situações surpresas da vida do que vivemos e podemos imaginar... então a busca continua...

Por que eu, quero que as coisas da minha vida sejam previsíveis se a vida toda é cheia de imprevistos? Por que querer certeza do mundo quando eu não tenho certeza de mim mesma? Por que acreditar que a razão pode definir as pessoas se toda contradição é explicável? Nem sempre os braços mais fortes serão os que mais fortemente envolvem. Porque a força de um abraço está muito mais no coração do que em qualquer outra coisa.

Entre o medo e o desejo, às vezes me perco sem saber o que fazer...
Eu não vou sair correndo e nem vou ficar parada... Eu estou buscando meu equilíbrio...
Talvez o equilíbrio que eu busco não seja o equilíbrio que o mundo precisa... mas com certeza é o melhor de mim que eu posso dar ao mundo.

Fonte da imagem:
http://www.paramulheres.com/como-praticar-meditacao/
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