terça-feira, 7 de agosto de 2018

Za Za Zu ou Sun Tzu?

Foto/Reprodução: Instagram

What f*** are you talking about it?

Meninas que assistiram Sex and the City certamente sabem o que é za za zu. Aquela energia gostosa da paixão pelo desconhecido, a ansiedade pelas descobertas, a vontade de ver o tempo todo, se jogar de cabeça ainda com os dois pés atrás, falar sim o tempo todo, se envolver sem limites até quebrar a cara com o Mr. Big.

Já o Sun Tzu é a arte da guerra. É fazer jogo o tempo todo. Dizer não mesmo quando está afim só pra criar um jogo de poder em que você espera ser o vencedor. Ter o brinquedinho na palma da mão mesmo que pra isso você tenha que ficar sem brincar por um tempo. É a arte do jogo. What a wicked game!

Acontece que a vida é curta demais pra jogar, perder tempo com estratégia de xadrez em que você não deixa de ser uma das peças. Mover ou não se mover, eis a questão. A vida também é curta demais pra se jogar numa história que claramente vai dar errado porque você está agindo sem nenhuma consicência, como um adolescente, mesmo que Carrie Bradshaw fizesse o papel de uma senhora de trinta e poucos anos. "Senhora" aqui é apenas uma expressão e não um adjetivo rs.

Mas eis que eu cheguei aos meus trinta e alguma coisa. E o que mais me espanta é ainda ver os suntzunianos playing hard nos relacionamentos. Eu dobro a aposta pra não entrar nesse game. “Ain’t nobody got time for that.”

Eu até posso concordar que o desafio deixa as coisas mais gostosas e que o impossível nos brilha os olhos. Mas gente, a vida cotidiana já não é desafiadora o suficiente? Acertar agendas numa sociedade em que trabalhamos mais de oito horas por dia, plus, ida e volta de todos os compromissos, plus obrigações diárias já não é impossível o suficiente?

E óbvio que ninguém vai se jogar em qualquer lugar e com qualquer um simplesmente porque ninguém quer acabar na sarjeta, mas um outro grande desafio tem sido encontrar pessoas que fluem. Gente, se flui, por que não deixar fluir? Eu ando sem paciência.

A vida toda é um exercício de equilibrar racional (Sun Tzu) e emocional (Za Za Zu). Todo dia trilhando um caminho que parece não ter fim. Uma dança esquizofrênica de dois seres que não entram em acordo. Uma hora razão impera enquanto a emoção espera. E eis que nesse conflito nada flui. Vira um verdadeiro picadeiro de um cego procurando o outro. Ninguém se entende. Tudo é moroso em vez de amoroso. Não flui. Enquanto um se joga o outro joga. Não há acordo. Sun Za Tzu Za Zu...

sexta-feira, 13 de julho de 2018

G (Sol Maior)

Foto/Reprodução: Instagram

Já pensou como se propaga o som? Como as cordas de um violão se oxidam? Ambos ocorrem num espaço vazio, denominado tempo.

Tempo na música é algo bem determinista. É o que dá o ritmo, mas nunca o tom. E o que fica depois  que o tempo passa é o tom. Para o tom, o tempo é algo bem relativo.

A impressão que a música deixa depende muito de quem a toca. Tocar um instrumento é tocar pessoas. Tocar uma música é tocar os próprios sentimentos.

Durante muito tempo, onde eu ia, meu violão ia comigo. Eu dava festas em casa e tocava violão. Eu tocava violão nas festas da faculdade. Eu levava o violão pra praia, pro parque.

Depois que eu processei o luto do meu avô paterno. Eu não pude mais. E até ontem eu não sabia bem o porque.

Hoje ao tocar violão eu vi a mão do meu avô ao fazer um G. Não era minha mão, era a mão dele fazendo um G.

Como pode depois de dez anos, eu ainda lembrar com detalhes da mão do meu avô? As unhas, os dedos, as veias, a pele.

Geneticamente é fácil de entender, minhas mãos são idênticas a do meu pai que, por sua vez, tem as mãos iguais a do meu avô. Mas o que as mãos fazem é o que a gente mais lembra.

Mãos que tocavam violam comigo. Mãos que me deram meus bonecos de super herói favoritos. Mãos que me levavam na pracinha pra brincar, jogar bola e ir no pula pula.

Mãos que abriam a bíblia pra me ajudar a fazer as lições do catecismo, que me davam chocolates. Mãos que acenavam a contar histórias e mais histórias. Sorria. Eu lembro de cada gesto, cada sorriso.

Eu demorei um tempo para entender que hoje, tocar violão ainda é sentar do lado do meu avô. Naquela tarde de sol, onde só a presença bastava dividindo um violão.

Eu consigo ouvir o pé dele batendo no chão pra ritmar a música. Eu posso sentir o cheiro do taco. Tocar virou um ritual de reencontro.

G de Sol Maior é também G de Geraldo. Avô paterno a quem dedico esse texto.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Presença

Foto/Reprodução: Instagram

Estar presente permite você ver duas araras azuis voarem juntas no meio da cidade de São Paulo. Abre seus olhos pra ver uma mãe fazendo bolhas de sabão com suas duas filhas pequenas. É observar um casal fazendo yoga. Os cachorros vindo cheirar sua canga. As crianças jogando bola.

Há tanta vida na presença.

Estar presente te permite ver o reflexo do sol na água. Ver a água se mover com a brisa. Ser água. Se inundar de tudo isso. Abre seus olhos pro contraste do céu azul com os prédios. Te permite ouvir o som das folhas tocadas pelo vento. Ver as folhas se desprenderem. O tempo mudar. O sol se esconder atrás das nuvens. Presenciar tudo isso e se diluir num tempo que não existe.

Há tanta poesia na presença.

Estar presente é apenas ser. Deixar ser. Amar quem somos. Nos sentirmos em paz com nossa própria presença. É tocar nosso Deus interior. Respeitar o Deus do outro. Perceber toda a divindade ao nosso redor. É fluir com tudo isso num uníssono movimento de amor. É olhar pra dentro. Se olhar de fora. É perceber que não há nem dentro e nem fora. Que somos todos um único universo que flui.

Há tanta liberdade na presença.

Estar presente é deitar na grama. Tomar chuva. Sentir calor. Sentir frio. Observar as nuvens passando enquanto respira. Ouvir o som dos pássaros, sentir o cheiro da terra molhada. Ser picada por mosquitos. É ser nuvem, ser vento, ser terra, ser sol. É se inundar do mundo.

É fluir

No amor da existência

Plena.

sábado, 7 de julho de 2018

Vênus em Sagitário

Foto/Reprodução: Instagram

Procuro uma Vênus em Sagitário pra dançar na chuva.
Pra viajar o mundo físico e o mundo da mente.
Pra abrir os dedos na jaca depois que já tiver feito tudo sem pensar.

Procuro uma Vênus em Sagitário pra me jogar de cabeça.
Pra sair de bike por aí sentindo a brisa no rosto e o barulho da roda cortando o ar.
Pra rolar na grama úmida e dormir com a cara no sol.

Ah! Eu vou sem medo! Sem medo da intensidade, sem medo da intimidade.

Sou Vênus em Sagitário e gosto de sorrir juntos de mãos dadas.
De dar pulinhos de alegria só porque estamos vivos depois de atravessar a rua sem olhar pros lados.
De cantar pagode no karaokê e dançar axé anos 90 no carnaval.

Sou Vênus em Sagitário e preciso de espaço pra ousar todas as minhas fantasias.
Pra entrelaçar nossas almas e mesmo assim continuar sendo livres.
Pra planejar roteiros e sonhar os cenários mais impossíveis.

Ah! Eu vou com minha flecha no meio desse campo ensolarado te caçar.

Procuro uma Vênus em Sagitário pra divagar sobre os assuntos mais aleatórios.
Pra me encantar por tudo que ainda desconheço.
Pra dormir abraçado e acordar flutuando.

Procuro uma Vênus em Sagitário pra ouvir samba e jogar frescoball na praia.
Pra curtir indie rock e fazer piada num pub bebendo mais do que deveria.
Pra fazer amizade no fumódromo e flertar com o desconhecido.

Ah! Eu vou de coração aberto, com um sorriso no rosto e uma flor atrás da orelha.

Sou Vênus em Sagitário e sei como viver fora da mesmisse.
Sei fazer do improviso e surpresa a nossa rotina.
Gosto de sentar na beira do lago, ler um livro e perceber que somos só energia.

Sou Vênus em Sagitário e vou mudar os caminhos todos os dias.
Vou por uma mochila nas costas e desbravar todas as suas emoções.
Pra experimentar novos temperos e aprender novas línguas.

Ah! Eu vou e não volto.

Procuro uma Vênus em Sagitário pra enfiar a mão dentro do saco de feijão.
Pra dançar sem música, cantar na tristeza e chorar de alegria.
Pra andar descalço, dormir nua e sujar os dedos de chocolate.

Procuro uma Vênus em Sagitário pra olhar pro alto e filosofar sobre a vida.
Pra me orgulhar do seu trabalho, sua ética e generosidade.
Pra conhecer todos seus grupos de amigos, sua família, sua história.

Ah! Eu vou seguir minha intuição, te procuro pelo cheiro da emoção.

Sou Vênus em Sagitário e gosto de assistir o nascer do sol.
De escorregar na cachoeira e deixar as borboletas pousarem na minha mão.
De brisar sobre a lua, ronronar com os gatos e muitas plantas em casa.

Sou Vênus em Sagitário e posso cuidar da sua bagunça.
Deixar você organizar minhas lembranças e ressignificar minhas dores.
Ascender um incenso e encher a casa de livros e cores.

Ah! Eu vou sonhando até tropeçar em você.

Procuro uma Vênus em Sagitário pra chorar assistindo filme.
Pra ficar triste porque nosso seriado favorito acabou.
Pra dormir numa barraca pra ver a aurora boreal na Islândia.

Procuro uma Vênus em Sagitário pra exagerar o fim do mundo.
Pra escrever poesia, tocar violão e torcer pelo nosso time.
Pra nunca deixar nossas crianças dormirem.

Ah! Eu vou sentindo saudade antes mesmo de te conhecer.

Sou Vênus em Sagitário e não me preocupo com nossas obrigações.
Eu quero ouvir Chico Buarque e ir no show do Radiohead.
Quero deixar a vida fluir e fluir com a vida fazendo yoga.

Sou Vênus em Sagitário e só sei fazer carinho desajeitado.
Adoro deixar bilhetinhos na mesa e compartilhar as refeições.
Espero encontrar corações na geladeira e te fazer cócegas de manhã.

Ah! Eu dormiria e acordaria todos os dias com essa metamorfose apaixonante.

Procuro uma Vênus em Sagitário pra escalar vulcões e fazer bolhas de sabão.
Pra virar a noite acordada e dar uma volta pela cidade.
Pra visitar exposições e se expor um ao outro.

Procuro uma Vênus em Sagitário pra casar na Tailândia.
Pra ter um filho e colocar ele nas costas pra fazer trilhas na Amazônia.
Pra ensina-lo que amar é ser livre. E que ser livre é se amar.

Ah! Eu ainda vou te encontrar...

Na astrologia, Vênus é o planeta que rege os relacionamentos, a sensualidade, a forma de nos vestir, o nosso corpo físico, especialmente o tato. Definição bem leiga do conceito astrológico, meu ponto era falar da Vênus em Sagitário.

terça-feira, 3 de julho de 2018

Um Dedo de Café e uma Dose de Afeto

Foto/Reprodução: Instagram

Hoje eu acordei com vontade de tomar café e comer um pedaço de queijo branco. Quem conhece minhas origens vai pensar "que desejo mais comum para uma mineira".

Mas esse café e esse queijo tinham um nome. Esse café tinha aroma de cuidado e o queijo tinha gosto de gargalhada.

Hoje eu só queria sentar naquela mesa pra ouvir ele dizer que era só eu tomar café pra minha faringite melhorar. Pra ver aquela mão cortando o queijo e ouvir ele dizer que logo logo ia passar.

O mais engraçado é que desde minha adolescência, toda vez que minha faringe apertava eu tomava um golinho de café.

Hoje, dois anos sem faringite, com a faringe começando a apertar, o café não desceu. Veio junto com o cheiro do café a saudade, os dedinhos de prosa, as festas, os bailes e as risadas. Veio também todas as vezes que ele, com toda a paciência do mundo, me ensinou a embrear o carro.

Eita que o coração apertou demais. Tanta lembrança, tanta alegria, tanto acolhimento, tanto cuidado, tanto aprendizado.

Na falta da presença, o que me conforta é que pessoas de bom coração nunca partem. Elas continuam para sempre em cada coração que elas tocaram.

E assim seguimos, cada um de nós, com cada lembrança e saudade que cada ente querido deixou.

Preencho a falta da presença com a gratidão por esse espaço de amor que ele deixou.

De tudo que ele me ensinou, o maior aprendizado, foi saber escolher pessoas de bom coração, como ele, para fazerem parte da minha vida.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

A Dança de Yang & Yin


Foto/Reprodução: Instagram

Não se apegue ao namoro como substantivo, muito menos como compromisso.

Enamore-se, namore, viva o verbo.

Deixe se encontrarem meu feminino e seu masculino no escuro.

Dance essa troca de energia, deixe fluir essa dualidade.

Deixe seu feminino encontrar meu masculino à luz.

Deixe que se contemplem, se completem e,

Com êxtase, se esvaziem.

Não há nada mais prazeroso que deixar fluir o pêndulo de nós mesmos.

Oscilando entre nossos eus, tudo que é meu e, tudo que é seu.

Sinta essa energia de tudo que é uno, integre-se e se entregue.

Aproprie-se de tudo que é seu através do que vê em mim enquanto me apodero de tudo que é meu que vejo em você.

Deixe que se entrelacem esses quatro opostos. O melhor casal é aquele que encontra o equilíbrio em si mesmo.

Faça amor entre quatro paredes. Enamore-se dessas quatro personas. Integre-as todas na unimultiplicidade.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

De Pijama é Mais Gostoso ;)

Foto/Reprodução: Instagram

Quem nunca fez yoga de pijamas que jogue a primeira pedra...

Lembro que na primeira aula de yoga, quatro anos atrás, o primeiro ensinamento que recebi foi que a filosofia do yoga é amor e que a gente não deve se agredir. Quem se agride, agride o outro. So obviously.

Mas embora eu tivesse ido buscar autoconhecimento, eu idealizava sair de lá super flexível e com autocontrole impecável, para inclusive, controlar o mundo.

É óbvio que com esse objetivo eu jamais pude cumprir a filosofia de não me agredir e jamais pude estabelecer uma conexão profunda comigo mesma. Eu apenas me criticava “nossa Aline mas essa sua flexibilidade parece de uma velha de 90 anos”. Era um sofrimento ritmar respiração e movimento, corpo e mente.

Também não vou falar que não aproveitei nada porque aprendi muita coisa sim, mesmo que não tenha praticado e vamos pegar leve, eu era uma pedra bem bruta rs, qualquer avanço foi um avanço.

Lembro que em uma aula em que o foco era aprender os vários tipos de respiração, controlar o ar que entra, o ar que sai, quanto entra, quanto sai e em quanto tempo, eu sai extasiada pensando “eu tenho o controle de alguma coisa”. Não à toa, no caminho pra casa naquele dia, eu travei a coluna, “amor”, disse o universo, “você não tem controle de nada, fica na sua”.

Passaram-se anos e eu fui fazer outras coisas, teve até dias nesse período de tempo em que eu estendi aquele tapete mas a conexão não aconteceu. Só rolou minha cobrança de ser perfeita e minha insatisfação de não conseguir fazer as coisas como eu queria.

Ontem, porém, foi um dia mágico. Eu tinha planejado ir nadar depois do trabalho mas o ônibus demorou tanto que não deu tempo. A espera de 30 minutos pelo ônibus que geralmente vinha em 5, me deixou extremamente ansiosa e frustrada. Quando ele, enfim, chegou, eu pensei no caminho: “vou chegar em casa e vou fazer yoga, vai ser tão bom quanto nadar”.

Cheguei em casa, tomei banho, coloquei meu pijama, ascendi um incenso, estendi meu tapete azul, cor de céu e, em paz, comecei.

Em seis minutos eu já percebia a sincronia da minha respiração com os movimentos. Eu fazia os alongamentos, doía, imagina... pelo menos quatro anos sem praticar... Eu sentia partes do meu corpo que estavam adormecidas, eu sentia a minha circulação esquentando as extremidades.

Suportava a dor em seu nível tolerável por 20 segundos, voltava à posição inicial com calma e agradecia cada músculo que trabalhou naquele momento. Agradecia a mim mesma por me dar a oportunidade de sentar naquele tapete, de não me exigir perfeição e de deixar fluir. Percebia minhas imperfeições e desalinhamentos. Sorria. Pensava: "como a imperfeição também pode ser bonita!" Ela é única, isso tudo sou eu.

A Aline de quatro anos atrás teria se estressado mais ainda por não atingir a performance idealizada, mas a Aline de hoje apenas agradece o fato de saber respeitar seus próprios limites. Abraça e solta a energia que passa e acolhe a energia que fica. Recicla a energia que veio pra se transformar. Eu apenas observo isso tudo e me espanto. Com esse novo eu e com como é muito mais fácil quando a gente faz o que vem de dentro em vez de buscar fora a nossa própria fonte interna.

A conexão, a sincronia e a paz eram tão grandes que depois de terminar, eu sentei no meu tapetinho e meditei... Na verdade, eu já estava em estado meditativo... foi tão fácil, nunca foi tão fácil meditar. Eu finalmente entendi, assumi e coloquei em prática a filosofia yoga “não se agrida”. Não há amor maior que se respeitar, em qualquer gênero ou grau.

Namaste
Haribol

Observação: sai do tapete para a cama, estava super relaxada e dormi a melhor noite de sono em anos. Façam yoga antes de dormir e de pijamas. Não há combinação melhor pra dormir com os anjos.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

A Partida de Saturno

Foto/Reprodução: Instagram

Um texto dedicado a Shiva: um dos deuses supremos do hinduísmo, conhecido também como "o destruidor e regenerador" da energia vital e criador do Yoga, devido ao seu poder de gerar transformações, físicas e emocionais, em quem pratica a atividade. 

Quando eu trintei, dois anos atrás, eu me propus a fazer 30 coisas que nunca havia feito na vida naquele ano todo. Foi divertido a lot!

Agora estou com 32 rumando os 33 e me vejo resgatando coisas que deixei pra atrás e ao mesmo tempo buscando coisas novas. Me sinto num movimento macio do pêndulo que busca a sabedoria do que passou e a inquietude da novidade.

Saturno que retornou aos meus 28, deveria ter partido ano passado após 4 anos de cobranças. Porém, como sou muito sortuda, na minha última revolução solar, continua lá, Saturno em meu signo Natal.

Estou encarando o quinto ano seguido desse planeta pesado nas minhas costas. Mas, sou daquelas que acredita que há males que vem pra bem. Afinal, com 7 planetas em Sagitário seria impossível não ser otimista, não é mesmo? Rs

Não à toa, esse quarto setenio de Saturno em Sagitário vem gritando por autoconhecimento, equilíbrio entre meu corpo animal instintivo, minha mente super racional e minha flecha mirada para os sonhos e desafios mais difíceis.

Quando esse astro voltou em 2014 eu sai pra um sabático. Joguei muita coisa pra cima pra abraçar outras. Conheci tantas filosofias diferentes pra construir a minha própria através de um sincretismo do oriental + ocidental, do profano + sagrado. Pra me arriscar no oposto de tudo que eu já conhecia.

Eu tenho sentido esse ano como um ano do deixar ir. Um ano de outono. Um ano de lua minguante. E por mais que isso possa soar triste, e de fato é, eu vejo tanta beleza nisso tudo. Lá vai o velho pra dar espaço pro novo entrar. E esse novo sou eu mesma.

Cada dia que passa eu fico mais encantada com o movimento da vida. Como as energias fluem, como as pessoas se atraem e se reencontram. Independente de qual seja a função das pessoas na nossa vida, elas têm sim, o momento certo pra chegarem e partirem. E esse aqui é só um parênteses para agradecer o universo por me trazer de volta tantos amigos que estavam distante e tantos novos que estão no mesmo momento que eu.

Mas... voltando ao propósito desse texto que era falar sobre a partida de Saturno, que sim, devido ao seu peso e tamanho, não é um movimento easy to handle it. Eu estou sentindo esse terremoto há pelo menos 6 meses, e agora, no ápice de seu trânsito de partir, eu cheguei a uma das conclusões mais confortantes desses 32 anos.

Eu estou mudando sim, como sempre mudei na vida. Mas estou mudando como um desabrochar. Eh diferente e eu não sei definir bem, mas sei explicar. Eu não estou no 8 ou 80 que sempre foram meus rompantes de mudança. Não é equilibrado porque o equilíbrio é impossível. Eu diria que é ponderado.

E por isso, eu resolvi nesses 32 anos, me propor a acolher 16 coisas que me fizeram bem e de alguma forma tem voltado pra minha vida e fazer 16 coisas que nunca tentei antes.

Isso representa que a Aline antiga e a Aline nova podem andar de mãos dadas. Elas não precisam se destruir pra que uma de espaço pra outra. Elas só precisam entrar em acordo sobre qual será o momento de cada uma daqui em diante.

Saturno traz sabedoria, ou os trinta, como os mais céticos queiram chamar. Basta fluir com o movimento da vida. Basta deixar ir como o outono. Basta acolher como a primavera. Basta se despir como a lua minguante e se vestir com os raios do sol.

O caminho é longo mas o trajeto pode ser prazeroso. Basta sentir a brisa da manhã e seguir as estrelas no final do dia. As constelações que apontam o futuro são as mesmas que registraram nosso passado.

O poder do agora é apenas deixar fluir.

sábado, 5 de maio de 2018

Lua Minguando

Foto/Reprodução: Instagram

Minguar: tornar-se menor, ou menos abundante; diminuir, reduzir-se, escassear.

Verbo transitivo direto e intransitivo.
Em transe, me esvaia de mim mesma.
Lua em escorpião, casa 8, minguando pela morte de um eu que se desfazia na imensidão do céu.
Sentia um emaranhado de emoções que não fluíam, era necessário deixar ir.
Tudo estava tão confuso que era impossível pegar qualquer emoção para expurga-lá.
Pensei logo, culpa da lua. Tenho me sentido extremamente regida pelas fases deste astro.
A mesma lua que me encheu de luz e brilho na sua fase cheia tem me feito minguar esta semana.
Que noite exaustiva. Era como um parto de um ser que não existia. De algo que jamais fecundou.
De fato, um ser que se foi. Descobri que pior que não ser o ser que fui ainda não sou um novo ser. Estou me transformando.
Na fase que se esvai tudo.
Fui até a janela pra procurar a lua. Ver através dela a fase que me encontro e entender o que eu sentia.
Não encontrei.
Céu vazio.
Forma escondida.
Era assim que eu me sentia. Queria me esconder e me sentia vazia.
Eu procurava uma lua branca, cheia, iluminada e no topo do céu.
Olhar errado.
Essa forma que eu procurava já não existia. Se foi. Céu vazio, escuro e sombrio.
Voltei pro meu sofá com um nó na garganta.
A angústia era tanta que eu queria sair do meu próprio corpo. Transcender. Voar.
Eu precisava de ar. Voltei a janela para fumar.
Foi aí que sem procurar nada no céu. Sem expectativas e formas pré definidas. Lá estava ela.
Vi vários pontos vermelhos no céu como se tivessem soltado fogos de artifício.
Achei estranho. Parecia fogo no céu. Queimava mais que o sol.
Firmei a vista pra ter certeza.
A superfície da lua, independente de sua fase, mostra sempre seu contraste das terras altas e mares.
As terras altas são iluminadas e os mares, resultado dos grandes impactos de meteoritos, são sombrios.
Eis que essa parte sombria da lua, hoje, se camuflava com o tom cinza escuro do céu de São Paulo, sujo.
Eu, com os olhos firmes e fixos naquela forma que se desmanchava via toda minha história se queimar naquele vermelho larva.
Lá estava a lua a minguar. Lá estavam todos os meus karmas a queimar.
Vermelha, sangrando, baixa, grande, ebulindo em emoções indefiníveis, irreconhecíveis. Pela metade.
Me esvaindo de tudo que me encheu na última semana.
E eu me perguntava o que dali iria restar.
Lembrei que assim como as árvores que deixam ir as folhas no inverno pra reflorescer, ali estava a lua no seu ciclo de deixar ir o que não lhe pertencia mais.
Me acalmei. Aceitei tudo. Me reconectei e deixei fluir.
A transcendência que eu precisava era a transmutação que acontecia.
Agradeci tudo que já se passou, me perdoei e lembrei que depois de minguar a lua nova há de brilhar com um novo ser.
Transformação.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Loved by the Moon

Foto/Reprodução: Instagram

A lua tem me espreitado há semanas.
Na fresta da persiana de casa é a luz branca que invade minha sala.
No céu azul claro das cinco da tarde é o flerte tímido que atrai meu olhar.
É no voltar do trabalho no fim do dia aquela energia que levanta meu espírito e diz ‘vem amar’.
É no meio da noite aquela penumbra que me empurra nos mais profundos desejos da alma.
É sério, a lua tem me espreitado há semanas.
Essa lua crescente que cada dia ocupa mais espaço dentro do meu peito.
É a lua crescendo toda noite me exigindo um olhar mais atento.
É a lua quase cheia imponente no meio da sala me dizendo ‘vem dançar’.
Branca, iluminada, cheia de energia e cheia de sol.
Do mesmo sol e luz que fazem meu coração pulsar.
Pulsa dentro, pulsa fora e continua ardendo.
Parece ser feita do mesmo fogo do sol mas é fria como o ar.
Lua cheia, lua branca, lua crescendo.
Diversas formas de uma mesma lua que continua aqui dentro.
E desde que ela tem me atraído o olhar e seguido os meus passos, sua luz tem me feito olhar pro alto.
Me faz olhar pra cima e pros lados encontrando o conforto do sol numa forma doce e macia.
É sério, agora sou eu que tenho perseguido a lua sem perceber.
É uma conexão que criamos passo a passo toda noite, toda manhã e agora também no fim da tarde.
Branca, nua, gelada e fria. Tão distante e tão energizante.
Me esfria cada poro e me ilumina cada pensamento.
Persigo a lua como quem persegue a si mesmo. Somos uma só.
Eu sinto a lua dentro de mim mesmo que distante ou encoberta ela esteja.
E quando me esqueço de que a lua eu também sou, ela me desvia o olhar pro alto e diz ‘vem brilhar.’

quarta-feira, 10 de abril de 2013

C A S A

Foto/Reprodução: Instagram

Um dia a gente foge de casa, outro a gente simplesmente sai e, na maioria das vezes, a gente se esconde dentro de casa.

Quando se está em casa, olha-se incansavelmente pela janela, tentando descobrir como são as outras casas. Se haveria casa melhor que esta em que vivemos porque esta é a única que conhecemos.

Você sai e percebe que é muito difícil alguém abrir a porta pra que você entre, você mesmo tem as suas portas trancadas.

Casa é um lugar sagrado. Às vezes a gente também demora a aprender isso.

Um dia fica muito sozinho ali dentro, então você abre a porta e deixa o seu igual entrar, afinal, o igual não oferece perigo.

Ironia da sua própria escolha, nesse momento, você é posto pra fora de casa. Você é obrigado a se olhar de fora pra dentro.

Vem a negação de tudo. Você pode até mudar de casa, mas a sua casa não sai de você.

Enquanto não se apropria de cada parede, cada reboco, cada azulejo, cada torneira pingando, chão riscado e lâmpada com mal contato.

A sua casa vai onde você estiver.

E depois de andarilhar o mundo, mudar de casa umas dez vezes, você percebe que possui a casa dentro de si.

Se for posto pra fora não tem mais problema... a casa está dentro de você.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Círculos & Identidade

Foto/Reprodução: Instagram

Era uma colcha como outra qualquer. Preta e branca. Ou melhor, branca. Mas a menina desenhava círculos ovais que ao ficarem prontos se moviam conforme o movimento da mão enquanto os desenhava. Giravam. Eram círculos pretos, de linha extremamente fina e próximas uma das outras. Giravam em sentidos contrários, com velocidade diferente. Com raiva diferente. Tinham tamanhos diferentes.

E quando ela terminou de desenhá-los, os círculos se moviam de forma tão desordenada que ela continuava sem entender o que sentia. E resolveu se debruçar sobre aquela cama que parecia macia para um momento triste e confuso. Mas seria como debruçar sobre suas incertezas. Ali estavam elas, tão desordenadas. Repousar ali era se entregar a confusão ou enfrentá-la?

Deitou. Queria ser tomada pelos círculos, mas ainda não tinha certeza do que acontecia. Se seria sugada ou se os absorveria. Despertou para uma identidade que não conhecia.

terça-feira, 20 de março de 2012

Luzia

Foto/Reprodução: Instagram

Nem um nem outro. Luzia dormia com as luzes acesas. Apagava. Gostava das madrugadas, a sua sombra se liquefazia com a sombra do quarto, com a sombra do mundo. Com as luzes apagadas podia ser uma só com tudo e assim perdia a noção de limite que o corpo e a sociedade lhe impunham. Gostava de músicas tristes. As alegres, só a faziam perceber o quanto era triste. Ser triste era uma alegria.

Tinha medo do mundo. De tudo que a pudesse tocar. Sombras se impunham num mundo que ela tentava construir. Antes ser sombra de si mesmo do que sombra dos outros... pensava quando apagava a luz... Às vezes se sentia mas sombra do que gente... De fato era melhor... podia se ver liquefeita no mundo, como um perfume diluído no ar, como uma brisa entre as folhas que se dispersam na rua. Não linear, sem limites físicos. Estar viva era seu maior limite.

Pensava enquanto caminhava sobre o quanto éramos limitados por estarmos vivos. Que se a gente pudesse se liquefazer um com os outros as sensações seriam mais completas. Mas a pele nos impede, a carne nos impede... Ambas nos passam a falsa sensação de que estar vivo é que nos permite sentir qualquer coisa.

Às vezes pensava que não existia. Era sua melhor fuga. Pensar que não existia lhe dava a maior liberdade possível enquanto viva. Se ela não existia, nada luzia...

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Linguisticamente possível, humanamente inviável

Foto/Reprodução: Instagram

k e g em em pares distintivos:
meu ego vive pelo seu eco...
Na verdade, traços distintos:
um cala. O outro grita.
Velar plosiva.

Alcançam o ápice quando:
não distinguem mais a diferença dêitica entre EU e VOCÊ.

Uma língua com complexo sistema de pronomes possessivos
Pode ser sua expressão pelo amor não-possessiva?

Ambiguidade dos pronomes na dêixis.
Um acordo fiduciário firmado
entre um surdo e um mudo.

Não estava no dicionário.
O que era significante?
Qual era seu significado?
Não havia consenso...

Sentença relativa com dois sujeitos.
Sujeito composto:
objeto subjetivado.
Sujeito oculto:
sujeito objetivado.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Mãe



Sabe aquele cheiro que sobe da máquina de algodão doce? De açúcar quente? Cheirava isso. Nessa época não se atentava em definir as coisas. Não entendia bem as coisas. Não definia nada, não conhecia o conceito de nada. Eram apenas sensações e verdades. Ela cheirava algodão doce. Pensava que nuvens eram doces também. O sorriso dela lhe fazia cócegas. Descobriu a primeira forma de amor. A única forma altruísta.

Amor é algo que se constrói com o tempo e pra que ele aconteça é preciso que de alguma forma as pessoas sejam feitas da mesma substância. Uma substância indefinida, impalpável. É uma substância tão abstrata que mesmo que a pessoa deixe de existir, na sua mente ou no mundo, a sensação é permanente, como uma tatuagem dentro de si. Um amor por si próprio que reflete numa imagem diversa no mundo. Você deixa de se amar quando ele não tem mais onde refletir. Temos de volta aquilo que damos ao mundo.

Ver um amor crescer é a única experiência que vale a pena nessa passagem. Existe apenas um motivo pelo qual existimos, o motivo que desconhecemos, que não mensuramos e não definimos. Todo o resto é mentira. Apenas o que você sente é uma verdade. Verdade mutante, mas verdade. O cheiro do algodão doce, é mais que uma verdade ou uma sensação, é um fato. O cheiro do açúcar quente quando sobe da máquina te eleva aos céus e te põe pra dormir nas nuvens. Comer o algodão doce, que de tão doce, repuxa suas bochechas por dentro, te provoca cócegas. Uma felicidade apenas por degustar um algodão doce. Só isso é verdade. Todo o resto é mentira. Tudo que é passível de definição e conceitos é mentira. Se perde no tempo e não faz sentido pra quem não o vive. Só o que sentimos é um fato, só um fato é verdade: as pessoas só precisam de amor.

Só é possível aprender a amar com uma pessoa. Que você reconhece o cheiro de olhos fechados. Que te acalma nos piores momentos com qualquer palavra, porque o que importa é a voz, e não as palavras. Que não precisa dizer nada, sequer te tocar, mas que você se sente protegido apenas por estar perto. E por mais que esteja distante de você no mundo, reflete o seu amor, a sua esperança e a sua expectativa com relação a tudo. A máquina de algodão doce. O doce que nunca amarga. O único doce que é tão macio e quente como de onde você veio, o único lugar que você quer estar em qualquer extremo, seja de felicidade ou de tristeza. A literal definição de partilha, porque somos um só.

E o que fazer quando sentimos isso? Quando procuramos definições e elas nos levam a uma única palavra: amor? É hora de cheirar como a algodão doce...

terça-feira, 14 de junho de 2011

Sobre a Saudade

Foto/Reprodução: Instagram

Gosto de pensar sobre o significado das palavras... Saudade é uma palavra que me intriga. Primeiro, porque há inúmeras definições e nenhum consenso (como todo sentimento). Segundo, porque sua transliteração em outros idiomas trazem semas extremamente divergentes de cultura para cultura, como se fosse algo totalmente diferente de ser humano para ser humano. E finalmente, porque quase sempre está associada à falta.

Penso, que sim, não há porque haver consenso. Porque a saudade é a própria falta. E a falta que cada um sente é a falta que lhe cabe. E daí, jamais será a mesma pra qualquer um. Talvez seja a sensação de estar plenamente vazio. Vazio de lembranças. De esperanças. Inteiro. Inteiramente incompleto. Estranhamente feliz, estranhamente leve. Como uma brisa que traz uma poeira que é deixada e trazida a cada metro percorrido. Como uma poeira que vira lama. Como uma poeira que cega. Como uma poeira que assenta. A mesma poeira, mas com uma capacidade imensa de transformação. Mas ainda assim, ser a mesma poeira.

A saudade é aquilo de tudo que restou antes que se fosse, já não nos lembramos mais do que gostavávamos de lembrar. Fica apenas uma indefinição. A mesma indefinição de antes de ter existido. Antes podia ser. Agora, já não é mais. A saudade é sempre o buraco da alma que a gente procura alguém/algo pra nos habitar. O erro é sempre associar a saudade a um objeto no mundo. Não! A saudade é apenas falta. Falta daquela poeira que é você mesmo, que hora é lama, hora cega, e hora assenta. É por isso que rostos se apagam com o tempo e cheiros permanecem...

Penso que saudade é fome, ausência é que falta de apetite. Na falta de sentido, pra que se alimentar? Saudade... come-se na esperança de sobreviver até preencher a falta. Falta de algo que existe. A falta é o que nos faz caminhar. É a certeza de que há algo bom pra nos habitar. Ausência não. Ausência é o não existir. Aquilo que não dói, mas também não abre o apetite. É ausência da própria falta. Ser completo. Completo de não ter porque se alimentar. Completo de falsas completudes.

A saudade só vem daquilo que é reciclável. De tudo que se vive, há sentimentos que são tão inutilizáveis que são como lixo orgânico. Fedem. Inapropriados. Inaproveitáveis. A vida é uma coleta seletiva. O tempo todo juntando restos do que valeu a pena. Do que pode ser reaproveitado. Do que vale a pena ser revivido. Revivido apenas em sua essência, mas em outras formas, outras cores, outros lugares. Essa é a magia e o porquê de tudo acabar.

A saudade é isso, apenas essência de alguma coisa. A sensação que nos causou. Onde, quem, quando e como são apenas definições. A marca de fato, é o que você não define. É o que você traz, sem saber de onde, de quem, porquê, antes mesmo que algo existisse. É a falta, é o que te move. É um suspiro, uma intenção, uma intuição, um não sei porque mas vou me atirar na lama, deixar que a tempestade me cegue até que a poeira se assente, e eu comece tudo novamente.

domingo, 3 de abril de 2011

Campanha nem lá nem cá

A todos campanhenses que saíram de casa
Foto/Reprodução: Instagram

Meu maior erro foi sair de casa trazendo fotos. Me agarrei às lembranças por achar que elas me diriam quem eu sou. Mas não, justamente por elas, não sou ninguém. Eu precisava ter vindo vazia, nua, aberta. Agora não sou ninguém, nem aquela nem essa. Nem mineira, nem paulistana. Uma mistura dos dois e ao mesmo tempo nada. Tinha que ter vindo sem nada, como um cão enxotado de casa. Ter morrido na partida e nascido na chegada. Mas vim meio viva, meio morta. Viva de alegria pelo novo, viva de esperança pra encontrar um lugar melhor. Viva de anseios, viva de medo.

E essa cidade mesmo cinza, sem estrelas, sem aquele cheiro de mato, não me assusta mais, na verdade nunca me assustou... Eu vim pra cá foi pra brigar mesmo! O que me incomoda mais aqui é a poluição sonora... Nem é a sujeira das ruas, o ar impuro, o rio podre ou o trânsito caótico... É a falta de silêncio mesmo... Essa cidade às vezes me sufoca, parece que quer me expelir. Eu resisto, luto bravamente... Fico. Mas às vezes sou eu quem quero fugir... Mas vou fugir pra onde? Eu já não estou em lugar nenhum... Estou sempre no meio da estrada, no meio do caminho... Perdida entre lá e cá. É uma sensação de estar perdida no limbo. Ou eu vivo o ontem ou eu vivo o amanhã. O hoje nunca existe...

Mas vim meio viva, meio morta. Morta de saudades. Morta de sonhos. Às vezes mato a saudade, ou melhor, me mato. Porque pra matá-la, só acabando comigo ou ela não voltaria assim que chego do outro lado da estrada. Saudade tem quantas vidas? Ela sempre ressuscita... Mas o que me incomoda mesmo não é a saudade de cá ou de lá, é essa vontade de estar em dois lugares ao mesmo tempo. De me dar para os dois e não estar em nenhum. O que me incomoda mesmo é a certeza de que qualquer que seja o lado, na outra margem sempre haverá reclamação. E eu fico ali suspensa no limbo, nem lá nem cá...

segunda-feira, 21 de março de 2011

Passageiro

Foto/Reprodução: Instagram

é mesmo isso? depois do perdão vem a saudade?
e se a saudade vem, o abraço vem também?

eu colho pedras nas ruas pra preencher o vazio
mas pedras são frias... e não se acomodam bem.

a saudade chama a lágrima?
e a chama não se apaga?
espera um abraço... espera um pouco...

e as pedras continuam no bolso...
no caminho vem o riso, vem o choro, vem o espanto...

se passa? os pés vão adiante...

a saudade é um aperto que eu não quero sentir
me aperte apenas se for com um abraço...

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Risque outra vida

Foto/Reprodução: Instagram

Riscou seu último fósforo pra acender o cigarro. A angústia da espera. Fumava aquele cigarro como se quisesse engolir o mundo. Uma fome desesperada de viver tudo como se fosse a primeira vez. Brasa e cinzas na ponta de seus dedos que não podiam mais desenhar o futuro. Na brasa, a esperança. Na cinza, o tempo perdido.

Tudo ali fora estava calmo, pensava que por isso deveria estar em paz também. Mas não funcionava assim. O determinismo não era uma regra, por mais determinado que quisesse ser. Implodiu a fumaça no peito. Faltou-lhe ar pra soluçar. Faltou-lhe lágrima. Faltou-lhe tudo. As cinzas não se desprendiam do cigarro. Eram inertes à gravidade. Não sabia pra onde ir... Só um nó na garganta.

Tragava na esperança de preencher o vazio da alma. Era tarde. Faltava fogo em casa. Ascendia um cigarro no outro. Faltava calor. As lembranças o consumiam. O amor acabou. A dor um dia também se foi. A dor deixou saudade. A saudade trouxe esperança. Esperança trouxe sonhos. Sonhos remetiam ao passado. Entregava-se ao vício de fumar.

Sabia que ainda estava vivo porque sonhava. Mas estava cansado de viver de sonhos. Sentia-se perdido no limbo. Ou vivia o ontem, ou vivia o amanhã. O presente jamais existia... Cultivava a ideia de que éramos frações um dos outros. Enxergava-se cheio de falhas. Sempre incompleto. Custou a aceitar que tudo era finito e eterno. Entendeu que só seria completo pelas lembranças que carregava. Desistiu de esquecê-las. Era impossível.

Tragava. Prendia. Expirava. A fumaça dissipava. Mas fica o cheiro, o gosto, os dedos amarelos. Desistiu de suspirar. Jogou o maço de cigarro fora. Respirou fundo e resolveu caminhar com o relógio até que a brasa cessasse. Carpe diem1!

1. Expressão latina popularmente traduzida como "colha o dia" ou "viva o momento".

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Sobre qualquer Coisa

Foto/Reprodução: Instagram

Coisa: A palavra mais vazia de significado e mais plena de sentidos.

Não menospreze os acasos, a dúvida que gera o erro geralmente é o que mais nos excita.
A vida é isso aí, dói, deixe-a ser. É uma corda solta.
Numa ponta, a saudade. Na outra, uma ponta de desejo.
Salte pra qualquer sorriso que lhe cause arte...

Nunca faça algo esperando retorno, isso não é bondade, é vaidade!
Não queira transformar ideias em realidade, sua vida só será um plágio mal feito delas.
A ansiedade é a medida do desencantamento, estraga a espera.
Espera! A sorte é o cuidado dos detalhes...

Ando com vontade de usar flores atrás da orelha. De andar com passos leves...

Viva a morte

Foto/Reprodução: Instagram

Tinha medo da morte. Não da morte em si. Mas dos segundos de consciência que a antecediam. Percebeu que estava ficando velho quando se preocupava mais com seus pais do que seus pais com ele. Preocupou-se por não ter filhos. Assustou-se quando os pais de seus amigos começaram a morrer, a consciência lhe mostrou que seus pais não eram heróis, muito menos imortais.

Mas o que poderia fazer com o tempo? Amanhã acordo com 70 anos - pensou. E só tinha 26. Tudo passava rápido demais. Seu primeiro luto foi aos nove anos. Avô materno. Não sentiu muito. Desconhecia o que era a morte. Na inocência da infância era apenas uma saudade perpétua. Aos 16, veio seu segundo luto. Seu padrinho de batismo. Com esse veio a lágrima. A lágrima de culpa, da certeza de impotência perante o tempo. Da incapacidade de mudar o passado, da impossibilidade de pedir perdão aos mortos.

Na adolescência a morte tomou forma. Assombrava-o. Tinha medo de morrer antes de amar. Tinha medo de ser morto. Tinha medo de ir pro inferno. Vez ou outra, chorava de medo de seus pais morrerem, outras vezes, desejava que morressem. Ah... a adolescência é a própria morte! Veio seu terceiro luto. Matar alguém dentro de si. Perguntou-se quantas vezes aquilo iria se repetir na vida e desejou morrer.

Vida adulta. A morte agora era branda. Entendeu que era o ciclo natural da vida. Morrer aos poucos todos os dias. Agora tinha as chaves de casa. Mas não tinha as chaves de seu coração. Coração povoado de moribundos e cadáveres, um verdadeiro cemitério de ilusões desfeitas. Morava sozinho. Nem sempre a vida era como ele imaginava. Mas nem por isso desejava morrer. A idade agora lhe mostrava que por egoísmo preferiria morrer antes de seus pais, mas por heroísmo, tinha que morrer depois deles.

Por egoísmo, também preferiria postergar um pouco mais a morte pra aproveitar mais a vida. Mas esse não era seu caso. Antes a dor do luto que a sensação de uma manhã vazia. Evitava acordar cedo aos fins de semana para não ter um longo dia de solidão. Era difícil conviver com aquelas lápides dentro de si. Aquilo o gelava de dentro para fora. Parecia um morto. É isso que a vida faz: Te mata

lentamente...

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Macaréu

Foto/Reprodução: Instagram

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sm Grande vaga que, na foz de alguns rios, anuncia o começo da preamar.
 
Colocou os óculos escuros. Há tempos não se perguntava se devia ir ou ficar. Pedro tinha sérias dificuldades em perdoar. Você acredita que há limite entre o amor e a loucura? Pedro não. A dificuldade começa pela falta de consenso sobre o que é loucura. O amor é consensual, a loucura não.

Pedro estava indo de encontro ao seu maior medo. Sua pior/melhor lembrança... Ele hesitava, já fazia um bom tempo que não se viam... Enfim, ele domou o medo e foi, afinal, já se considerava lúcido o suficiente... E jaz aí, mais um conceito em que Pedro cansava-se de seu bom senso e pedia a Deus pelo senso comum.

Ao chegar à avenida, o primeiro ônibus a passar não lhe servia, e ele já começou a pensar que fosse um sinal de que não deveria ir. Embora nada supersticioso, Pedro buscava justificativas para não se sentir tão covarde. Mas antes que concluísse este pensamento, passou um ônibus que o levaria de encontro a si mesmo.

Ele subiu a ponte que sobe todos os dias para ir ao trabalho. Passou sobre aquele rio fétido, podre, mórbido. Se perguntava se aquilo tinha fundo. Passou, fechou os olhos e prendeu a respiração. Dizem que assim você pode ter a impressão de que o tempo está passando mais devagar. Mas até quando Pedro conseguiria postergar seus sinais vitais e o ponteiro do relógio?

Desceu do ônibus. Mais 100 passos para dois anos de culpa. Não é uma boa ideia, ainda posso desistir - pensou. A angústia foi tomando cada vez mais espaço dentro de si até que se tornaram um só e antes que novamente adoecesse deu o primeiro passo.

Lá estava ela. Bem mais bonita que há dois anos. Foi com as pernas moles e o coração duro. Abrir um sorriso? Dar um abraço? Apertar suas mãos? Ou selar um beijo no rosto? Três anos na mesma cama era agora como o sol e o mar que jamais se tocaram. Parou diante dela e disse: Oi.

Ainda não entendia o motivo daquele encontro. Mas pra que buscar motivos agora pra uma vida que nunca teve razão? Passava o dedo na mesa molhada pra ter certeza de que aquilo não era ilusão. Ela parecia tão bem. Sorria. Você está mais magro. Está no mesmo trabalho? Terminou a faculdade? Vontade imensa de ser grosso, responder-lhe que não tinha mais nada com sua vida e que ainda não se conformava de tê-la ido encontrar.

Mas ele precisava daquilo. Era preciso saber até onde aquilo o impedia de continuar. Resolveu fazer o melhor de si como se aquilo fosse uma nova conquista. Como se estivesse conhecendo alguém. E estava. Eles não eram mais os mesmos. Era como o Blood Mary que ela tomava e seu Curaçau Blue. Não combinavam.

Aos poucos foi se soltando. Percebeu que tinha vivido algo sozinho. Que havia culpado alguém por uma loucura que era só sua. A angústia foi virando lucidez e a loucura foi virando saudade. Por fim, sorriu. Descobriu que loucura passa. Amor não.

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sm O encontro das águas do Rio Amazonas com o mar chama-se Pororoca. Esta é uma grande onda de maré alta que, com ruído estrondoso, sobe impetuosamente rio acima, apresentando uma frente abrupta de considerável altura, perigosa à navegação, e que depois de sua passagem forma ondas menores, os banzeiros, que se quebram violentamente nas praias; macaréu.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Uma carta à Loucura

Foto/Reprodução: Instagram
Preciso de uma dose de loucura. Alguém tem uma garrafa dessas sobrando em casa? Eu não consigo viver do que é palpável... Sempre tive bons amigos que me seguraram nas curvas dos meus devaneios. Me espanta o fato de que agora eles são os primeiros a me incentivarem a me jogar do precipício.

Sempre achei que no meu círculo social só apareciam pessoas exóticas... designers, poetas, putas, neuróticos... Sempre me diverti com eles. Putas também amam e loucos também podem ser boas pessoas. No fundo eu sou um pouco de tudo isso, sou um pouco de todos eles. A verdade é que ninguém é influenciado por aquilo que não temos uma "tendência" a nos tornarmos... Atraímos aquilo que nos faz bem. Ou não.

Deixei nas mãos dos meus amigos a minha loucura. Cada um guardou um pedaço dela pra que ela não me destruísse... Mas acho que eles acabaram bebendo um pouco dela também. Os vejo mais loucos que eu. Eles, que eram minhas rédias e meu cinismo diante de minhas próprias ilusões. Devolvam minha loucura! Vocês querem me empurrar guela abaixo o que um dia já foi meu. Mas eu não quero isto que vocês estão me devolvendo. Isto agora é de vocês.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

E por fim, a sobremesa

Foto/Reprodução: Instagram

Oferta do dia: Romeu e Julieta 5,85. Bem casado 7,59. Esses malditos valores quebrados que tentam passar a impressão de que você pode pagar menos do que algo vale, quando na verdade pagamos muito mais do que aquilo nos custa...

Mais uma vez, o garçom retira os restos esfrangalhados da mesa. Pedaços mutilados depois de uma farta ceia. A mesa vai ficando vazia aos poucos... De tempos em tempos vem uma mão sem rosto retirando o que resta. Por fim, vão-se até as últimas migalhas.

A mesa fica limpa. Outro casal se senta e a mesa está novamente farta.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O salto

Foto/Reprodução: Instagram

Um dia eu perdi o medo de voar, resolvi saltar de asa delta. Eu não conhecia o instrutor, mas ele me olhava de uma forma que eu não precisava temer. O risco era alto... Na subida me passavam mil coisas pela cabeça, percebi que teria que ser na impulsividade, porque a dúvida vez ou outra pairava entre os pensamentos, e a ingrata me excitava... Antes de me jogar, sem que ele precisasse me dizer, eu sabia que não era certo onde iríamos pousar, havia apenas a previsão de um ponto quase incerto em que iríamos nos despedir. Eu tive que correr para dar impulso e nessa hora foi preciso muita coragem pra tirar os pés do chão. De repente, ele não estava mais sob os meus pés... Eu demorei pra soltar os braços e a surpresa de não ter onde me segurar me impediu de sentir o vento no meu rosto logo no começo. Ele continuou sendo um desconhecido mesmo tendo compartilhado comigo um momento em que eu senti quase todas as emoções possíveis naquela hora: medo, euforia, ansiedade, liberdade, angústia, êxtase... Perto de chegar do chão, eu percebi que tinha deixado um pedaço de mim diluído no ar e que tinha trazido um pouco de alguém que eu continuava sem saber quem era. Que agora me despertava uma curiosidade melindrosa e uma saudade distante quase sem lembranças. Ao tocar a terra firme, minhas pernas estavam trêmulas e eu não tinha mais uma mão pra me segurar... Eu olhei pra cima e não consegui me ver e até agora não sei onde descemos, só de onde saltamos...

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O Eterno Retorno

Foto/Reprodução: Instagram

Eu vou me encontrar onde eu me perdi. Cada dia que passa eu tenho mais certeza de que estou caminhando pra mim mesma, não apenas como autoconhecimento, mas como o encontro de alguém que se perdeu no mundo e pelo mundo. Eu só me enxergo quando estou de fora porque no espelho eu sou aquilo que quero projetar... A verdade é um pouco mais complexa de se alcançar. É uma catarse de Édipo todos os dias para os que tem coragem e vontade de procurar...

Nesse ponto, vejo como a literatura clássica é sábia. Como a mitologia revela a alma humana de forma simples e por metáforas que me fazem entrar em êxtase. E o êxtase acontece quando meu olhar persephiano sobre o mundo é uma eterna primavera... Identifico cada dia mais, episódios de uma epopeia em minha vida singular, cenas de tragédia nos meus dias tão simplórios e completas peças de comédia no meu tropeçar. As dualidades são expostas e os traumas entendidos.

Com o passar dos anos vamos percebendo e identificando como os velhos ditados fazem sentido na nossa vida. Depois de muito caminhar, conseguimos enxergar uma estrada inteira e só aí entender o sentido de cada passo que no início parecia controverso, duvidoso, arriscado e sem direção. Cada dia que passa, enxergo mais a vida como um ciclo. E enquanto não fechamos todos os ciclos não é possível sair da rotatória. A vida o fará andar em círculos até que o aprendizado se concretize. E não falo aqui de Deus, ou mitologia, ou astrologia, ou qualquer coisa "do além". A metáfora do texto é apenas uma forma de contar a vida de uma forma mais poética. Porque é disso que a vida precisa, uma dose de poesia. Porque a vida nada mais é do que o quanto de metáforas podemos criar com a linguagem.

A vida é simples, bonita e um tanto perigosa pra quem acha que sabe viver. E aqui mais uma vez não se trata de um conselho de mãe que diria pra não dirigir bêbado, mas apenas pra alertar que todos erramos e que todos pagaremos pelos nossos erros e não como forma de castigo divino, mas porque toda ação gera uma reação, e por isso, as consequências são inevitáveis. Talvez as consequências sejam "amenizáveis", mas o importante mesmo do aprendizado da vida não é não errar mais, mas saber lidar com o erro, até porque, erro é um conceito que depende muito de situação, realidade, cultura e condições. E muitas vezes a dúvida que gera o erro é o que mais nos excita...

Se tornamos os momentos mágicos ou se de fato há magia nesse mundo, eu não sei... Eu me sinto livre... Vou trilhando conforme as sementes que deixo por aí, porque ninguém colhe aquilo que não plantou... Meu olhar persephiano agora vê a primavera, sente a brisa... porque a magia está simplesmente na entrega de sentir o mundo simplesmente pelo que ele é... Eu respiro fundo... abro os olhos e é primavera... Nesse ponto, em que enxergo cada vez mais o início da rotatória com mais nitidez, só posso esperar que envelhecer realmente é algo prazeroso para a mente. Por mais que o mundo se torne mais nítido e por isso mais "sujo", o medo, a insegurança e a incerteza são cada dia menores.

Às vezes me pergunto se em algum ponto, os círculos se encontram, e é claro que não tenho resposta. A sensação de pensar nisso é como um quê de nostalgia... Rodando em círculos, passando por pontos que parecem já percorridos mas com novas sensações, com sensações a menos e fica aquele gostinho de quero mais, seja como for... E perseguimos como palhaços correndo em torno de um carrossel sem nunca chegar ao final... mas sempre enxergando o início... e o início nos faz correr mais e mais para o final.

Enfim, é só mais um texto de alguém que busca um sentido para a vida todos os dias, e que o encontra nos mais singelos sinais de que a vida existe por si só, porque a busca é o sentido... A vida não precisa de corpo, matéria ou ser, ela simplesmente é e eu a deixo ser...

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Rue de La Fortune

Foto/Reprodução: Instagram

Brasileira foi internada na França por alucinações. Será deportada em 15 dias, visto não ter nenhum conhecido ou parente próximo neste país. Se alguém conhecê-la, contate o serviço de imigração. A senhora afirma ter reencontrado naquele lugar um velho amigo de adolescência a fim de se casarem. Testemunhas afirmam que a mesma estava bêbada abordando um famoso escritor italiano no Café Les Deux Moulins.

Naquela tarde fazia frio. Mas não era somente um frio ambiente, estava congelada por dentro. A impotência diante do tempo.
Viver ali há cinquenta anos longe de todos não era fácil. Mas naquela idade em que se encontrava, não havia mais nenhum conhecido vivo no Brasil, além de seu irmão caçula que também já estava por falecer.
Todas as tardes ela caminhava até o Café, sentava-se na mesa e começava a ler. Entre as páginas que ela passava podia-se notar as lágrimas que escorriam e manchavam o papel amarelado. País gélido. Ninguém se incomodava com suas lágrimas. Ninguém perguntava se ela estava bem, apenas se desejava algo mais. E se ela pudesse pedir algo, seria uma dose de lucidez ou como tantas noites em casa já havia ligado no delivery, pediria um abraço.
O que a mantinha viva naquele lugar era se agarrar todos os dias ao que o resto do café podia lhe dizer no fundo da xícara. Ela ainda tinha forças pra se alimentar. Os flocos de neve eram como as gélidas lembranças que vagueavam sua memória. Era o que a mantinha viva. A existência do que já fora. O passado era tão distante. Por vezes ela tinha o devaneio de tentar descobrir em que lugar da Itália morava seu escritor brasileiro preferido. Ela se encontrava descrita nos seus textos. Era outro fato que a fazia sentir-se viva, menos sozinha no mundo. Devaneios... mas que a faziam respirar, e no mais dos tempos, suspirar!
Domingo. Cinco da tarde. Nos seus tempos de adolescente ela assistiria qualquer programa da TV brasileira e criticaria. Numa fase mais madura assistiria filmes. E mais pra frente, se tivesse os tido, levaria os filhos pra passear no parque. Logo, hoje, ela também não leva os netos que não teve. E, por isso, todos os dias ela se questionava nesse Café: Por que não ter sido trivial? Ao menos não estaria aqui sozinha me agarrando às fantasias até hoje...
Há tanto tempo ela não sentia tanto frio. Aquele parecia ser o dia mais frio de toda sua vida no continente europeu. Quando a porta do café se abriu e entrou um senhor de sobretudo marrom, meio curvado com uma pasta na mão ela não sentiu apenas o frio na pele. Ela sentiu um frio dentro de seu ventre. O café ficou mais doce, porém mais gelado. E o doce que já era doce chegava a ser enjoativo. Ela não saberia descrever aquela sensação como nunca soube descrever o que sentira por aquele homem a vida toda.
Ele se sentou numa mesa frente a ela. Mas era como se a não percebesse. A mulher da cafeteria abrira a janela e pequenos flocos de neve invadiram o espaço. Por alguns instantes acreditou que o vira. Sim! Ele! O detentor de suas maiores fantasias da adolescência. Mas logo percebeu que os flocos de neve eram apenas geladas lembranças de uma história que nunca havia ocorrido no plano real, apenas nos contos, nos poemas, nas crônicas. Mas eles estavam ali, aos 70 e poucos anos, será que não era a hora?
Ela se perguntava até que ponto era real sua paixão por aquele escritor. Ela tentava reviver na sua memória, a sua adolescência. E se aquele escritor de fato era aquele jovem com quem trocara tantas licenças poéticas. Teve certeza, hesitou, até que em um momento pode perceber que ele a olhou com olhar assustado e ao mesmo tempo incerto.
Ela tomava seu café e fitava-o. Ela mal acreditava, não podia ser... depois de tanto tempo, tantos planos. Quando moravam no Brasil marcaram dezenas de encontros e não conseguiam se ver. Seria possível o melhor acaso de sua vida? Seria tudo tão poético assim? Tão profético? Ou tão trágico... Ela não se conteve e foi conversar com ele. Ele não a reconhecia. Ela insistia.
Ele jamais a esquecera e por várias vezes tentara encontrar seus passos, enviar-lhe cartas, mas tantas tinham sido as mudanças na vida de ambos, que ele preferiu mantê-la em seus textos. Nos textos que ela lia e se sentia viva. Ele também não queria acreditar naquele instante, não podia admitir isso. Por que só agora aos setenta anos e tão longe do Brasil?
Ele gostou da idéia de não reconhecê-la e ouvi-la contar todos seus devaneios, todos seus encontros e desencontros. Aquela explosão de sentimentos da velha amiga inflava seu ego apodrecido pela falta de amor. Ela tentava convencê-lo mais convicta de que seu nome era Ana que o dele era Cadu. Ela munia-se do espírito adolescente de outrora e contava-lhe em pormenores com todo entusiasmo os seus planos e suas lembranças:
Ana: Sim! Era um dia tão frio quanto esse... era o máximo de frio que podia fazer no sul de Minas Gerais... o Brasil não era tão tropical assim a primeira vez que subimos ao Parnaso... A Perséfone sentia algo por Hades que ela não conseguia explicar. Era inverno. Era com ele que ela deveria estar, assim como hoje, mas a Primavera sempre os separava... Você não se lembra?
Ele apenas sorria e continuava a escrever no seu bloco de anotações. As pessoas ao redor cada vez mais notavam o descontrole de uma senhora de 70 e poucos anos que começava a se portar como uma garotinha de 15, tamanho entusiasmo...
Ana: Por que você não diz nada?
Cadu: Porque eu não sou quem você está pensando.
Ana: Claro que é. Aliás, porque você nunca publicou nossas cartas como havíamos combinado assim como os contos?
Cadu: Porque eram...
Ana: O quê? Viu! Você é quem eu estava esperando!
Cadu: Minha cara senhora, tente se acalmar, devo ser muito parecido com esta pessoa que está falando, mas acredite, eu sou inglês, moro na Itália há dois anos e jamais estive no Brasil, muito menos na minha adolescência.
E ele sorriu. E não pense que foi um riso de “você é louca”, mas sim um riso de “sim, eu estive lá, me lembro muito bem e não acredito nesse momento, não acho justo.”
Ana: Sim! Eu me lembro muito bem da primeira vez que o vi. Eu tive uma impressão tão torta de você! Você parecia querer chamar a atenção de todo mundo. E eu parecia querer chamar sua atenção mesmo que não devesse. Não sabia bem porque queria, se era porque você estava roubando a minha cena ou porque a sua atenção era o que me importava. Enfim, não faria diferença, as condições não eram propícias. Mas estamos aqui aos 70 e poucos anos como planejamos em tantos devaneios poéticos.
Cadu: Que livro está lendo? Deixe-me ver?
A mão trêmula dentro de uma luva grossa, que impediu o toque das peles tão esperado, entregou o livro.
Cadu: Você quer um autógrafo? Aqui está uma dedicatória para você na última página.
Ana: Por que na última página? Não importa.
Balançava a cabeça de um lado para o outro apoiada com os braços na mesa e batendo os pés no chão, aumentava também seu tom de voz:
Ana: Eu quero que você admita que é o mesmo Carlos Eduardo que conheci há 55 anos. Não sei por que está me torturando dessa maneira.
Ela não entendia aquela indiferença. Eles estavam ali por um acaso. Todas as escolhas que haviam feito durante mais de 50 anos não importavam mais.
Ela não se conteve a mais uma implosão. E como na primeira vez que o vira, quis chamar a atenção de todos. Era indecoroso para uma senhora daquela idade, mas ela chutava as cadeiras, derrubava as mesas e arremessava os copos contra a parede. Dentro de minutos ela foi levada por perturbar a ordem pública. Foi constatado que ela sofria de alucinações.

Como ela não tem parentes nem conhecidos nesse país, o governo francês a deportará para o Brasil, seu país de origem, aproveitando a passagem encontrada dentro do livro que carregava.

Desistiram do café e depois de poucos minutos, a segunda garrafa de vinho já havia acabado. Seus olhos se cruzavam com mais doçura e desejo a cada gole. As mãos trêmulas se tocavam e os olhos pesados da idade se fitavam enchendo-se de vida novamente.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Hora da morte 12:26

Foto/Reprodução: Instagram

Abri os olhos: Consultório 04 senha 252. Ainda não era a minha vez. Nem daquela senhora que acabara de estatelar-se no chão quatro filas de cadeira à minha frente. 57 pessoas presenciavam o espetáculo da vida em decadência. Já ouvi por aí que não há dignidade na morte, pesquisei e descobri algo chamado "Constitucionalidade da Morte Digna", mas de que vale a Constituição, se nem vida digna ela garante?

Poucos minutos antes eu pensava sentada e infeliz, o meu número ser chamado no painel de procrastinação da morte: Aquele garoto com um anel de cada cor em três dedos da mão, tenho certeza que em dois anos será traficante. Aquela de macacãzinho de veludo roxo, aposto como só está fazendo manha pro namorado. E esse casal senil que me desperta nojo, também ainda me causa piedade. Ela tão gordinha e ele tão magro. Ambos mal vestidos. A botina dele despejava terra no saguão do hospital e eu maldosamente pensava: Pobres, tão pobres, como podem ter um plano de saúde? Será que são os filhos que pagam para eles? Porque definitivamente eles já não podem trabalhar nessa idade, ou pelo menos não deveriam, pensava eu com um pouco de benevolência que ainda me restava pelo próximo. Cansei de observar o mundo. Ainda faltam 30 números pra que eu seja chamada, vou me permitir cochilar.

Senha 252 no painel e o médico que chamara esse indivíduo que atende pelo nome de 252 veio ao saguão ver porque ninguém entrava. Todos apáticos, apenas uma garota de aproximadamente 24 anos veio ao encontro do médico pra dizer-lhe que uma senhora acabara de desmaiar. Secretárias, faxineiras, enfermeiros, seguranças, ninguém se mexia. Apenas o senhor que derramava terra no saguão correu para socorrer a mulher que caira de bruço no chão. Eu acabava de abrir os olhos, estava com preguiça de interagir, respirar... e principalmente de observar o que acontecia, mas não pude deixar de perceber aquele velho médico, cabelos brancos mas pele lisa, olhos claros e gordo com olhar cansado, blasé e amargo balançando a cabeça e olhando no relógio sem emitir som: Hora da morte 08:55.

Passava "As aventuras do Pinóquio II" na TV e eu não sabia qual era a maior das mentiras naquele dia: se era eu escrevendo este texto fingindo que me importava, se era as manhas da garota de macacão roxo que realmente podia estar doente ou se era aquela senhora fingindo de morta pra chamar atenção e finalmente ser atendida.

Consultório 01 senha 264. Só me resta dormir. O tempo não passa, já são 10:35. Minha cabeça dói. Foi por isso que vim aqui. Mal consigo abrir os olhos. O mundo é muito feio e agride minhas retinas... Ainda faltam 18 números para serem atendidos. Me deixo dormir e espero que ninguém desmaie novamente pra chamar atenção e atrapalhe meu sono.

Eis que finalmente eu fui atendida, e como já dizia uma amiga minha: "eles não estão nem aí com a hora da sua morte, muito menos com a sua doença." Passei exatamente quatro minutos na consulta em que o médico sequer tocou no meu corpo. Sim, a consulta não durou nem 1% do tempo despendido naquele hospital. A única certeza com a qual saí daquele consultório é de que eu deveria esperar mais alguns instantes no saguão para ser medicada. Como sei que vai demorar, me permito dormir mais um pouco para não ter que observar que aquela menina de 12 anos tão magra já deve ter anorexia pelos padrões difundidos pelo "Beautiful way of life".

Inferno! Tum tum tunturum tum tum tunturum... que assovio frio... Quem inventou e disponibilizou músicas temas de filme para toque de celular? Ou melhor, por que esse infeliz não colocou o celular no silencioso? Estamos em um hospital oras... Eu acordei gelada com uma dose de adrenalina e a primeira imagem que vinha na minha cabeça era de uma enfermeira loira, gostosa, cabelos lisos, como essas dolls que se vê aos montes na rua hoje em dia, todas com mesmo número de fabricação e mesma quantidade de formol dizendo 282 com uma voz sexy.

Finalmente despertei com o barulho de passos. Eu estava sentada na última fileira e atrás de mim havia um corredor vazio que o simples bater de asas de um mosquito podia emitir eco. Toc Toc o barulho do salto alto ecoava na minha cabeça e não mais no corredor. Lembrei, então, que eu já estava há meia hora na fila de medicação. Ainda doía minha cabeça, mas a adrenalina de acordar com The Killer's Song era tanta que eu só podia imaginar que poderiam injetar vaselina em vez de dipirona mais decadron na minha veia.

O painel de medicação mostrava meu nome: 282, olhei no relógio e já eram 12:26.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A colheita

Não há escolha sábia das uvas para o melhor vinho. Processos mecanizados na produção do vinho não fazem diferença no tilintar de uma noite fria... Nem sempre as mais belas uvas servem o mais fino vinho.

A colheita ja é, na verdade, uma etapa posterior a várias outras etapas iniciais, como o preparo de si próprio, a escolha do terreno a se frequentar... Você colhe e coleciona figurinhas e monta seu próprio "ideal". A partir deste ideal, seleciona possíveis videiras onde encontrá-lo. Mas nem sempre as melhores uvas produzem o melhor vinho. Há tantas etapas e transformações envolvidas que você não pode controlar... e quando menos espera está entorpecida e flutuando com um vinho barato ou com um gosto de guarda-chuva na boca com um Cheval Blanc 1947.

Dizem que como a uva possui enorme influência sobre o sabor do vinho, a colheita precisa ser feita no tempo certo. Uma colheita prematura resulta em um vinho aguado, com baixa concentração de álcool enquanto uma colheita tardia, produz um vinho rico em álcool, mas com pouca acidez. Qual é o tempo certo? O solo há ainda de influenciar nas uvas, e por consequência no vinho...

Sim, você tem acesso a bons vinhos procurando por marca e safra. Mas a quintessência do vinho depende mais do que sua escolha, mais do que um processo perfeito de fabricação. A quitessência está muito mais relacionada a ser escolhido, a se deixar entorpocer e se envolver numa química que você próprio não explica e que nenhuma análise laboratorial minuciosa seria capaz de desvendar.

E assim é, você procura a perfeição mas descobre que a perfeição é monótona. A paixão realmente lhe pega pelos defeitos, descobre que é a acidez do vinho que o faz gostar do doce do vinho. Porque se o vinho fosse apenas doce, em apenas um copo você enjoaria. Descobre que a pressa estraga tudo...estraga o gozo, estraga a espera. Um vinho aberto antes da hora não embebeda, uma uva colhida antes da hora não fermenta... Um vinho passado do tempo vira vinagre, amargo como lembranças engavetadas de uma história que jamais pode ser.

Enquanto o vinho está confinado em barris e você não tem o poder de escolha, resta embriagar-se com outras bebidas pra que o copo não fique vazio. Você experimenta enquanto isso marcas chulas, vinhos que não entorpecem, outros apenas pelo rótulo... Enquanto o tempo não lhe permite tomar o vinho certo as coisas são mais fáceis. Duro é a hora de virar o último gole ou abrir a primeira garrafa. Girar o vinho na taça e sentir seu aroma... ah! a espera... Fechar os olhos e aos poucos virar aquela taça que você saliva de imaginar o sabor nunca provado... Enfim toca sua língua, e nesse momento você descobre que não pode mais viver no mundo real. Bem-vindo ao mundo de Dionísio...