terça-feira, 14 de junho de 2011

Sobre a saudade


Gosto de pensar sobre o significado das palavras... Saudade é uma palavra que me intriga. Primeiro, porque há inúmeras definições e nenhum consenso (como todo sentimento). Segundo, porque sua transliteração em outros idiomas trazem semas extremamente divergentes de cultura para cultura, como se fosse algo totalmente diferente de ser humano para ser humano. E finalmente, porque quase sempre está associada à falta.

Penso, que sim, não há porque haver consenso. Porque a saudade é a própria falta. E a falta que cada um sente é a falta que lhe cabe. E daí, jamais será a mesma pra qualquer um. Talvez seja a sensação de estar plenamente vazio. Vazio de lembranças. De esperanças. Inteiro. Inteiramente incompleto. Estranhamente feliz, estranhamente leve. Como uma brisa que traz uma poeira que é deixada e trazida a cada metro percorrido. Como uma poeira que vira lama. Como uma poeira que cega. Como uma poeira que assenta. A mesma poeira, mas com uma capacidade imensa de transformação. Mas ainda assim, ser a mesma poeira.

A saudade é aquilo de tudo que restou antes que se fosse, já não nos lembramos mais do que gostavávamos de lembrar. Fica apenas uma indefinição. A mesma indefinição de antes de ter existido. Antes podia ser. Agora, já não é mais. A saudade é sempre o buraco da alma que a gente procura alguém/algo pra nos habitar. O erro é sempre associar a saudade a um objeto no mundo. Não! A saudade é apenas falta. Falta daquela poeira que é você mesmo, que hora é lama, hora cega, e hora assenta. É por isso que rostos se apagam com o tempo e cheiros permanecem...

Penso que saudade é fome, ausência é que falta de apetite. Na falta de sentido, pra que se alimentar? Saudade... come-se na esperança de sobreviver até preencher a falta. Falta de algo que existe. A falta é o que nos faz caminhar. É a certeza de que há algo bom pra nos habitar. Ausência não. Ausência é o não existir. Aquilo que não dói, mas também não abre o apetite. É ausência da própria falta. Ser completo. Completo de não ter porque se alimentar. Completo de falsas completudes.

A saudade só vem daquilo que é reciclável. De tudo que se vive, há sentimentos que são tão inutilizáveis que são como lixo orgânico. Fedem. Inapropriados. Inaproveitáveis. A vida é uma coleta seletiva. O tempo todo juntando restos do que valeu a pena. Do que pode ser reaproveitado. Do que vale a pena ser revivido. Revivido apenas em sua essência, mas em outras formas, outras cores, outros lugares. Essa é a magia e o porquê de tudo acabar.

A saudade é isso, apenas essência de alguma coisa. A sensação que nos causou. Onde, quem, quando e como são apenas definições. A marca de fato, é o que você não define. É o que você traz, sem saber de onde, de quem, porquê, antes mesmo que algo existisse. É a falta, é o que te move. É um suspiro, uma intenção, uma intuição, um não sei porque mas vou me atirar na lama, deixar que a tempestade me cegue até que a poeira se assente, e eu comece tudo novamente.

2 comentários:

  1. Ótimo texto! Ah, essas falsas completudes! Acho que tem gente que "não sabe" sentir saudade, confunde com posse... não sei o que você acha... ;)

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  2. Concordo com você.... infelizmente muitas pessoas confundem as coisas... não é porque se sente saudade de algo que se deve continuar com isso... as coisas são momentâneas....

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