sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Macaréu

Foto/Reprodução: Instagram

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sm Grande vaga que, na foz de alguns rios, anuncia o começo da preamar.
 
Colocou os óculos escuros. Há tempos não se perguntava se devia ir ou ficar. Pedro tinha sérias dificuldades em perdoar. Você acredita que há limite entre o amor e a loucura? Pedro não. A dificuldade começa pela falta de consenso sobre o que é loucura. O amor é consensual, a loucura não.

Pedro estava indo de encontro ao seu maior medo. Sua pior/melhor lembrança... Ele hesitava, já fazia um bom tempo que não se viam... Enfim, ele domou o medo e foi, afinal, já se considerava lúcido o suficiente... E jaz aí, mais um conceito em que Pedro cansava-se de seu bom senso e pedia a Deus pelo senso comum.

Ao chegar à avenida, o primeiro ônibus a passar não lhe servia, e ele já começou a pensar que fosse um sinal de que não deveria ir. Embora nada supersticioso, Pedro buscava justificativas para não se sentir tão covarde. Mas antes que concluísse este pensamento, passou um ônibus que o levaria de encontro a si mesmo.

Ele subiu a ponte que sobe todos os dias para ir ao trabalho. Passou sobre aquele rio fétido, podre, mórbido. Se perguntava se aquilo tinha fundo. Passou, fechou os olhos e prendeu a respiração. Dizem que assim você pode ter a impressão de que o tempo está passando mais devagar. Mas até quando Pedro conseguiria postergar seus sinais vitais e o ponteiro do relógio?

Desceu do ônibus. Mais 100 passos para dois anos de culpa. Não é uma boa ideia, ainda posso desistir - pensou. A angústia foi tomando cada vez mais espaço dentro de si até que se tornaram um só e antes que novamente adoecesse deu o primeiro passo.

Lá estava ela. Bem mais bonita que há dois anos. Foi com as pernas moles e o coração duro. Abrir um sorriso? Dar um abraço? Apertar suas mãos? Ou selar um beijo no rosto? Três anos na mesma cama era agora como o sol e o mar que jamais se tocaram. Parou diante dela e disse: Oi.

Ainda não entendia o motivo daquele encontro. Mas pra que buscar motivos agora pra uma vida que nunca teve razão? Passava o dedo na mesa molhada pra ter certeza de que aquilo não era ilusão. Ela parecia tão bem. Sorria. Você está mais magro. Está no mesmo trabalho? Terminou a faculdade? Vontade imensa de ser grosso, responder-lhe que não tinha mais nada com sua vida e que ainda não se conformava de tê-la ido encontrar.

Mas ele precisava daquilo. Era preciso saber até onde aquilo o impedia de continuar. Resolveu fazer o melhor de si como se aquilo fosse uma nova conquista. Como se estivesse conhecendo alguém. E estava. Eles não eram mais os mesmos. Era como o Blood Mary que ela tomava e seu Curaçau Blue. Não combinavam.

Aos poucos foi se soltando. Percebeu que tinha vivido algo sozinho. Que havia culpado alguém por uma loucura que era só sua. A angústia foi virando lucidez e a loucura foi virando saudade. Por fim, sorriu. Descobriu que loucura passa. Amor não.

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sm O encontro das águas do Rio Amazonas com o mar chama-se Pororoca. Esta é uma grande onda de maré alta que, com ruído estrondoso, sobe impetuosamente rio acima, apresentando uma frente abrupta de considerável altura, perigosa à navegação, e que depois de sua passagem forma ondas menores, os banzeiros, que se quebram violentamente nas praias; macaréu.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Uma carta à Loucura

Foto/Reprodução: Instagram

Preciso de uma dose de loucura. Alguém tem uma garrafa dessas sobrando em casa? Eu não consigo viver do que é palpável... Sempre tive bons amigos que me seguraram nas curvas dos meus devaneios. Me espanta o fato de que agora eles são os primeiros a me incentivarem a me jogar do precipício.

Sempre achei que no meu círculo social só apareciam pessoas exóticas... designers, poetas, putas, neuróticos... Sempre me diverti com eles. Putas também amam e loucos também podem ser boas pessoas. No fundo eu sou um pouco de tudo isso, sou um pouco de todos eles. A verdade é que ninguém é influenciado por aquilo que não temos uma "tendência" a nos tornarmos... Atraímos aquilo que nos faz bem. Ou não.

Deixei nas mãos dos meus amigos a minha loucura. Cada um guardou um pedaço dela pra que ela não me destruísse... Mas acho que eles acabaram bebendo um pouco dela também. Os vejo mais loucos que eu. Eles, que eram minhas rédias e meu cinismo diante de minhas próprias ilusões. Devolvam minha loucura! Vocês querem me empurrar guela abaixo o que um dia já foi meu. Mas eu não quero isto que vocês estão me devolvendo. Isto agora é de vocês.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

E por fim, a sobremesa

Foto/Reprodução: Instagram

Oferta do dia: Romeu e Julieta 5,85. Bem casado 7,59. Esses malditos valores quebrados que tentam passar a impressão de que você pode pagar menos do que algo vale, quando na verdade pagamos muito mais do que aquilo nos custa...

Mais uma vez, o garçom retira os restos esfrangalhados da mesa. Pedaços mutilados depois de uma farta ceia. A mesa vai ficando vazia aos poucos... De tempos em tempos vem uma mão sem rosto retirando o que resta. Por fim, vão-se até as últimas migalhas.

A mesa fica limpa. Outro casal se senta e a mesa está novamente farta.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O salto

Foto/Reprodução: Instagram

Um dia eu perdi o medo de voar, resolvi saltar de asa delta. Eu não conhecia o instrutor, mas ele me olhava de uma forma que eu não precisava temer. O risco era alto... Na subida me passavam mil coisas pela cabeça, percebi que teria que ser na impulsividade, porque a dúvida vez ou outra pairava entre os pensamentos, e a ingrata me excitava... Antes de me jogar, sem que ele precisasse me dizer, eu sabia que não era certo onde iríamos pousar, havia apenas a previsão de um ponto quase incerto em que iríamos nos despedir. Eu tive que correr para dar impulso e nessa hora foi preciso muita coragem pra tirar os pés do chão. De repente, ele não estava mais sob os meus pés... Eu demorei pra soltar os braços e a surpresa de não ter onde me segurar me impediu de sentir o vento no meu rosto logo no começo. Ele continuou sendo um desconhecido mesmo tendo compartilhado comigo um momento em que eu senti quase todas as emoções possíveis naquela hora: medo, euforia, ansiedade, liberdade, angústia, êxtase... Perto de chegar do chão, eu percebi que tinha deixado um pedaço de mim diluído no ar e que tinha trazido um pouco de alguém que eu continuava sem saber quem era. Que agora me despertava uma curiosidade melindrosa e uma saudade distante quase sem lembranças. Ao tocar a terra firme, minhas pernas estavam trêmulas e eu não tinha mais uma mão pra me segurar... Eu olhei pra cima e não consegui me ver e até agora não sei onde descemos, só de onde saltamos...

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O Eterno Retorno

Foto/Reprodução: Instagram

Eu vou me encontrar onde eu me perdi. Cada dia que passa eu tenho mais certeza de que estou caminhando pra mim mesma, não apenas como autoconhecimento, mas como o encontro de alguém que se perdeu no mundo e pelo mundo. Eu só me enxergo quando estou de fora porque no espelho eu sou aquilo que quero projetar... A verdade é um pouco mais complexa de se alcançar. É uma catarse de Édipo todos os dias para os que tem coragem e vontade de procurar...

Nesse ponto, vejo como a literatura clássica é sábia. Como a mitologia revela a alma humana de forma simples e por metáforas que me fazem entrar em êxtase. E o êxtase acontece quando meu olhar persephiano sobre o mundo é uma eterna primavera... Identifico cada dia mais, episódios de uma epopeia em minha vida singular, cenas de tragédia nos meus dias tão simplórios e completas peças de comédia no meu tropeçar. As dualidades são expostas e os traumas entendidos.

Com o passar dos anos vamos percebendo e identificando como os velhos ditados fazem sentido na nossa vida. Depois de muito caminhar, conseguimos enxergar uma estrada inteira e só aí entender o sentido de cada passo que no início parecia controverso, duvidoso, arriscado e sem direção. Cada dia que passa, enxergo mais a vida como um ciclo. E enquanto não fechamos todos os ciclos não é possível sair da rotatória. A vida o fará andar em círculos até que o aprendizado se concretize. E não falo aqui de Deus, ou mitologia, ou astrologia, ou qualquer coisa "do além". A metáfora do texto é apenas uma forma de contar a vida de uma forma mais poética. Porque é disso que a vida precisa, uma dose de poesia. Porque a vida nada mais é do que o quanto de metáforas podemos criar com a linguagem.

A vida é simples, bonita e um tanto perigosa pra quem acha que sabe viver. E aqui mais uma vez não se trata de um conselho de mãe que diria pra não dirigir bêbado, mas apenas pra alertar que todos erramos e que todos pagaremos pelos nossos erros e não como forma de castigo divino, mas porque toda ação gera uma reação, e por isso, as consequências são inevitáveis. Talvez as consequências sejam "amenizáveis", mas o importante mesmo do aprendizado da vida não é não errar mais, mas saber lidar com o erro, até porque, erro é um conceito que depende muito de situação, realidade, cultura e condições. E muitas vezes a dúvida que gera o erro é o que mais nos excita...

Se tornamos os momentos mágicos ou se de fato há magia nesse mundo, eu não sei... Eu me sinto livre... Vou trilhando conforme as sementes que deixo por aí, porque ninguém colhe aquilo que não plantou... Meu olhar persephiano agora vê a primavera, sente a brisa... porque a magia está simplesmente na entrega de sentir o mundo simplesmente pelo que ele é... Eu respiro fundo... abro os olhos e é primavera... Nesse ponto, em que enxergo cada vez mais o início da rotatória com mais nitidez, só posso esperar que envelhecer realmente é algo prazeroso para a mente. Por mais que o mundo se torne mais nítido e por isso mais "sujo", o medo, a insegurança e a incerteza são cada dia menores.

Às vezes me pergunto se em algum ponto, os círculos se encontram, e é claro que não tenho resposta. A sensação de pensar nisso é como um quê de nostalgia... Rodando em círculos, passando por pontos que parecem já percorridos mas com novas sensações, com sensações a menos e fica aquele gostinho de quero mais, seja como for... E perseguimos como palhaços correndo em torno de um carrossel sem nunca chegar ao final... mas sempre enxergando o início... e o início nos faz correr mais e mais para o final.

Enfim, é só mais um texto de alguém que busca um sentido para a vida todos os dias, e que o encontra nos mais singelos sinais de que a vida existe por si só, porque a busca é o sentido... A vida não precisa de corpo, matéria ou ser, ela simplesmente é e eu a deixo ser...

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Rue de La Fortune

Foto/Reprodução: Instagram

Brasileira foi internada na França por alucinações. Será deportada em 15 dias, visto não ter nenhum conhecido ou parente próximo neste país. Se alguém conhecê-la, contate o serviço de imigração. A senhora afirma ter reencontrado naquele lugar um velho amigo de adolescência a fim de se casarem. Testemunhas afirmam que a mesma estava bêbada abordando um famoso escritor italiano no Café Les Deux Moulins.

Naquela tarde fazia frio. Mas não era somente um frio ambiente, estava congelada por dentro. A impotência diante do tempo.
Viver ali há cinquenta anos longe de todos não era fácil. Mas naquela idade em que se encontrava, não havia mais nenhum conhecido vivo no Brasil, além de seu irmão caçula que também já estava por falecer.
Todas as tardes ela caminhava até o Café, sentava-se na mesa e começava a ler. Entre as páginas que ela passava podia-se notar as lágrimas que escorriam e manchavam o papel amarelado. País gélido. Ninguém se incomodava com suas lágrimas. Ninguém perguntava se ela estava bem, apenas se desejava algo mais. E se ela pudesse pedir algo, seria uma dose de lucidez ou como tantas noites em casa já havia ligado no delivery, pediria um abraço.
O que a mantinha viva naquele lugar era se agarrar todos os dias ao que o resto do café podia lhe dizer no fundo da xícara. Ela ainda tinha forças pra se alimentar. Os flocos de neve eram como as gélidas lembranças que vagueavam sua memória. Era o que a mantinha viva. A existência do que já fora. O passado era tão distante. Por vezes ela tinha o devaneio de tentar descobrir em que lugar da Itália morava seu escritor brasileiro preferido. Ela se encontrava descrita nos seus textos. Era outro fato que a fazia sentir-se viva, menos sozinha no mundo. Devaneios... mas que a faziam respirar, e no mais dos tempos, suspirar!
Domingo. Cinco da tarde. Nos seus tempos de adolescente ela assistiria qualquer programa da TV brasileira e criticaria. Numa fase mais madura assistiria filmes. E mais pra frente, se tivesse os tido, levaria os filhos pra passear no parque. Logo, hoje, ela também não leva os netos que não teve. E, por isso, todos os dias ela se questionava nesse Café: Por que não ter sido trivial? Ao menos não estaria aqui sozinha me agarrando às fantasias até hoje...
Há tanto tempo ela não sentia tanto frio. Aquele parecia ser o dia mais frio de toda sua vida no continente europeu. Quando a porta do café se abriu e entrou um senhor de sobretudo marrom, meio curvado com uma pasta na mão ela não sentiu apenas o frio na pele. Ela sentiu um frio dentro de seu ventre. O café ficou mais doce, porém mais gelado. E o doce que já era doce chegava a ser enjoativo. Ela não saberia descrever aquela sensação como nunca soube descrever o que sentira por aquele homem a vida toda.
Ele se sentou numa mesa frente a ela. Mas era como se a não percebesse. A mulher da cafeteria abrira a janela e pequenos flocos de neve invadiram o espaço. Por alguns instantes acreditou que o vira. Sim! Ele! O detentor de suas maiores fantasias da adolescência. Mas logo percebeu que os flocos de neve eram apenas geladas lembranças de uma história que nunca havia ocorrido no plano real, apenas nos contos, nos poemas, nas crônicas. Mas eles estavam ali, aos 70 e poucos anos, será que não era a hora?
Ela se perguntava até que ponto era real sua paixão por aquele escritor. Ela tentava reviver na sua memória, a sua adolescência. E se aquele escritor de fato era aquele jovem com quem trocara tantas licenças poéticas. Teve certeza, hesitou, até que em um momento pode perceber que ele a olhou com olhar assustado e ao mesmo tempo incerto.
Ela tomava seu café e fitava-o. Ela mal acreditava, não podia ser... depois de tanto tempo, tantos planos. Quando moravam no Brasil marcaram dezenas de encontros e não conseguiam se ver. Seria possível o melhor acaso de sua vida? Seria tudo tão poético assim? Tão profético? Ou tão trágico... Ela não se conteve e foi conversar com ele. Ele não a reconhecia. Ela insistia.
Ele jamais a esquecera e por várias vezes tentara encontrar seus passos, enviar-lhe cartas, mas tantas tinham sido as mudanças na vida de ambos, que ele preferiu mantê-la em seus textos. Nos textos que ela lia e se sentia viva. Ele também não queria acreditar naquele instante, não podia admitir isso. Por que só agora aos setenta anos e tão longe do Brasil?
Ele gostou da idéia de não reconhecê-la e ouvi-la contar todos seus devaneios, todos seus encontros e desencontros. Aquela explosão de sentimentos da velha amiga inflava seu ego apodrecido pela falta de amor. Ela tentava convencê-lo mais convicta de que seu nome era Ana que o dele era Cadu. Ela munia-se do espírito adolescente de outrora e contava-lhe em pormenores com todo entusiasmo os seus planos e suas lembranças:
Ana: Sim! Era um dia tão frio quanto esse... era o máximo de frio que podia fazer no sul de Minas Gerais... o Brasil não era tão tropical assim a primeira vez que subimos ao Parnaso... A Perséfone sentia algo por Hades que ela não conseguia explicar. Era inverno. Era com ele que ela deveria estar, assim como hoje, mas a Primavera sempre os separava... Você não se lembra?
Ele apenas sorria e continuava a escrever no seu bloco de anotações. As pessoas ao redor cada vez mais notavam o descontrole de uma senhora de 70 e poucos anos que começava a se portar como uma garotinha de 15, tamanho entusiasmo...
Ana: Por que você não diz nada?
Cadu: Porque eu não sou quem você está pensando.
Ana: Claro que é. Aliás, porque você nunca publicou nossas cartas como havíamos combinado assim como os contos?
Cadu: Porque eram...
Ana: O quê? Viu! Você é quem eu estava esperando!
Cadu: Minha cara senhora, tente se acalmar, devo ser muito parecido com esta pessoa que está falando, mas acredite, eu sou inglês, moro na Itália há dois anos e jamais estive no Brasil, muito menos na minha adolescência.
E ele sorriu. E não pense que foi um riso de “você é louca”, mas sim um riso de “sim, eu estive lá, me lembro muito bem e não acredito nesse momento, não acho justo.”
Ana: Sim! Eu me lembro muito bem da primeira vez que o vi. Eu tive uma impressão tão torta de você! Você parecia querer chamar a atenção de todo mundo. E eu parecia querer chamar sua atenção mesmo que não devesse. Não sabia bem porque queria, se era porque você estava roubando a minha cena ou porque a sua atenção era o que me importava. Enfim, não faria diferença, as condições não eram propícias. Mas estamos aqui aos 70 e poucos anos como planejamos em tantos devaneios poéticos.
Cadu: Que livro está lendo? Deixe-me ver?
A mão trêmula dentro de uma luva grossa, que impediu o toque das peles tão esperado, entregou o livro.
Cadu: Você quer um autógrafo? Aqui está uma dedicatória para você na última página.
Ana: Por que na última página? Não importa.
Balançava a cabeça de um lado para o outro apoiada com os braços na mesa e batendo os pés no chão, aumentava também seu tom de voz:
Ana: Eu quero que você admita que é o mesmo Carlos Eduardo que conheci há 55 anos. Não sei por que está me torturando dessa maneira.
Ela não entendia aquela indiferença. Eles estavam ali por um acaso. Todas as escolhas que haviam feito durante mais de 50 anos não importavam mais.
Ela não se conteve a mais uma implosão. E como na primeira vez que o vira, quis chamar a atenção de todos. Era indecoroso para uma senhora daquela idade, mas ela chutava as cadeiras, derrubava as mesas e arremessava os copos contra a parede. Dentro de minutos ela foi levada por perturbar a ordem pública. Foi constatado que ela sofria de alucinações.

Como ela não tem parentes nem conhecidos nesse país, o governo francês a deportará para o Brasil, seu país de origem, aproveitando a passagem encontrada dentro do livro que carregava.

Desistiram do café e depois de poucos minutos, a segunda garrafa de vinho já havia acabado. Seus olhos se cruzavam com mais doçura e desejo a cada gole. As mãos trêmulas se tocavam e os olhos pesados da idade se fitavam enchendo-se de vida novamente.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Hora da morte 12:26

Foto/Reprodução: Instagram

Abri os olhos: Consultório 04 senha 252. Ainda não era a minha vez. Nem daquela senhora que acabara de estatelar-se no chão quatro filas de cadeira à minha frente. 57 pessoas presenciavam o espetáculo da vida em decadência. Já ouvi por aí que não há dignidade na morte, pesquisei e descobri algo chamado "Constitucionalidade da Morte Digna", mas de que vale a Constituição, se nem vida digna ela garante?

Poucos minutos antes eu pensava sentada e infeliz, o meu número ser chamado no painel de procrastinação da morte: Aquele garoto com um anel de cada cor em três dedos da mão, tenho certeza que em dois anos será traficante. Aquela de macacãzinho de veludo roxo, aposto como só está fazendo manha pro namorado. E esse casal senil que me desperta nojo, também ainda me causa piedade. Ela tão gordinha e ele tão magro. Ambos mal vestidos. A botina dele despejava terra no saguão do hospital e eu maldosamente pensava: Pobres, tão pobres, como podem ter um plano de saúde? Será que são os filhos que pagam para eles? Porque definitivamente eles já não podem trabalhar nessa idade, ou pelo menos não deveriam, pensava eu com um pouco de benevolência que ainda me restava pelo próximo. Cansei de observar o mundo. Ainda faltam 30 números pra que eu seja chamada, vou me permitir cochilar.

Senha 252 no painel e o médico que chamara esse indivíduo que atende pelo nome de 252 veio ao saguão ver porque ninguém entrava. Todos apáticos, apenas uma garota de aproximadamente 24 anos veio ao encontro do médico pra dizer-lhe que uma senhora acabara de desmaiar. Secretárias, faxineiras, enfermeiros, seguranças, ninguém se mexia. Apenas o senhor que derramava terra no saguão correu para socorrer a mulher que caira de bruço no chão. Eu acabava de abrir os olhos, estava com preguiça de interagir, respirar... e principalmente de observar o que acontecia, mas não pude deixar de perceber aquele velho médico, cabelos brancos mas pele lisa, olhos claros e gordo com olhar cansado, blasé e amargo balançando a cabeça e olhando no relógio sem emitir som: Hora da morte 08:55.

Passava "As aventuras do Pinóquio II" na TV e eu não sabia qual era a maior das mentiras naquele dia: se era eu escrevendo este texto fingindo que me importava, se era as manhas da garota de macacão roxo que realmente podia estar doente ou se era aquela senhora fingindo de morta pra chamar atenção e finalmente ser atendida.

Consultório 01 senha 264. Só me resta dormir. O tempo não passa, já são 10:35. Minha cabeça dói. Foi por isso que vim aqui. Mal consigo abrir os olhos. O mundo é muito feio e agride minhas retinas... Ainda faltam 18 números para serem atendidos. Me deixo dormir e espero que ninguém desmaie novamente pra chamar atenção e atrapalhe meu sono.

Eis que finalmente eu fui atendida, e como já dizia uma amiga minha: "eles não estão nem aí com a hora da sua morte, muito menos com a sua doença." Passei exatamente quatro minutos na consulta em que o médico sequer tocou no meu corpo. Sim, a consulta não durou nem 1% do tempo despendido naquele hospital. A única certeza com a qual saí daquele consultório é de que eu deveria esperar mais alguns instantes no saguão para ser medicada. Como sei que vai demorar, me permito dormir mais um pouco para não ter que observar que aquela menina de 12 anos tão magra já deve ter anorexia pelos padrões difundidos pelo "Beautiful way of life".

Inferno! Tum tum tunturum tum tum tunturum... que assovio frio... Quem inventou e disponibilizou músicas temas de filme para toque de celular? Ou melhor, por que esse infeliz não colocou o celular no silencioso? Estamos em um hospital oras... Eu acordei gelada com uma dose de adrenalina e a primeira imagem que vinha na minha cabeça era de uma enfermeira loira, gostosa, cabelos lisos, como essas dolls que se vê aos montes na rua hoje em dia, todas com mesmo número de fabricação e mesma quantidade de formol dizendo 282 com uma voz sexy.

Finalmente despertei com o barulho de passos. Eu estava sentada na última fileira e atrás de mim havia um corredor vazio que o simples bater de asas de um mosquito podia emitir eco. Toc Toc o barulho do salto alto ecoava na minha cabeça e não mais no corredor. Lembrei, então, que eu já estava há meia hora na fila de medicação. Ainda doía minha cabeça, mas a adrenalina de acordar com The Killer's Song era tanta que eu só podia imaginar que poderiam injetar vaselina em vez de dipirona mais decadron na minha veia.

O painel de medicação mostrava meu nome: 282, olhei no relógio e já eram 12:26.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A colheita

Não há escolha sábia das uvas para o melhor vinho. Processos mecanizados na produção do vinho não fazem diferença no tilintar de uma noite fria... Nem sempre as mais belas uvas servem o mais fino vinho.

A colheita ja é, na verdade, uma etapa posterior a várias outras etapas iniciais, como o preparo de si próprio, a escolha do terreno a se frequentar... Você colhe e coleciona figurinhas e monta seu próprio "ideal". A partir deste ideal, seleciona possíveis videiras onde encontrá-lo. Mas nem sempre as melhores uvas produzem o melhor vinho. Há tantas etapas e transformações envolvidas que você não pode controlar... e quando menos espera está entorpecida e flutuando com um vinho barato ou com um gosto de guarda-chuva na boca com um Cheval Blanc 1947.

Dizem que como a uva possui enorme influência sobre o sabor do vinho, a colheita precisa ser feita no tempo certo. Uma colheita prematura resulta em um vinho aguado, com baixa concentração de álcool enquanto uma colheita tardia, produz um vinho rico em álcool, mas com pouca acidez. Qual é o tempo certo? O solo há ainda de influenciar nas uvas, e por consequência no vinho...

Sim, você tem acesso a bons vinhos procurando por marca e safra. Mas a quintessência do vinho depende mais do que sua escolha, mais do que um processo perfeito de fabricação. A quitessência está muito mais relacionada a ser escolhido, a se deixar entorpocer e se envolver numa química que você próprio não explica e que nenhuma análise laboratorial minuciosa seria capaz de desvendar.

E assim é, você procura a perfeição mas descobre que a perfeição é monótona. A paixão realmente lhe pega pelos defeitos, descobre que é a acidez do vinho que o faz gostar do doce do vinho. Porque se o vinho fosse apenas doce, em apenas um copo você enjoaria. Descobre que a pressa estraga tudo...estraga o gozo, estraga a espera. Um vinho aberto antes da hora não embebeda, uma uva colhida antes da hora não fermenta... Um vinho passado do tempo vira vinagre, amargo como lembranças engavetadas de uma história que jamais pode ser.

Enquanto o vinho está confinado em barris e você não tem o poder de escolha, resta embriagar-se com outras bebidas pra que o copo não fique vazio. Você experimenta enquanto isso marcas chulas, vinhos que não entorpecem, outros apenas pelo rótulo... Enquanto o tempo não lhe permite tomar o vinho certo as coisas são mais fáceis. Duro é a hora de virar o último gole ou abrir a primeira garrafa. Girar o vinho na taça e sentir seu aroma... ah! a espera... Fechar os olhos e aos poucos virar aquela taça que você saliva de imaginar o sabor nunca provado... Enfim toca sua língua, e nesse momento você descobre que não pode mais viver no mundo real. Bem-vindo ao mundo de Dionísio...

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A Ferro e Fogo

Foto/Reprodução: Instagram

Analice tinha duas referências de amor, a primeira e a segunda. A Primeira dos olhares que se cruzavam na rua aos beijos, aos meses que se passavam descobrindo um ao outro. A Segunda foi da tentativa ao erro, por não haver mais descobrimento de si mesma, mas só descobrimento de um ao outro para o desencantamento.

Depois de alguns anos de namoro, Analice sentia o amor por todos os cantos. Com o tempo, o encantamento passou a ser admiração. E a Primeira se findou quando o amor, aos pedaços, que não tinha mais a intensidade do começo, deu lugar à curiosidade de conhecer casas diferentes, casas que pudessem ter uma lareira que não se apagasse e que não precisasse de trabalho para mantê-la acesa eternamente.

Analice saiu de casa por livre e espontânea vontade e colocou-o pra fora porque ele havia fechado as janelas e ela não conseguia mais enxergar como seria o mundo lá fora. Saíram ambos de casa e ela o negou até então, incomparável por falta de outras referências. Decidiu procurar o seu oposto porque da rotina restaram algumas mágoas e o inconsciente a conduziu ao contrário de seu início na esperança de encontrar, também, o oposto de seu fim.

Ela guardou seus defeitos bem nítidos para evitá-los e muita lenha pra queimar em outra lareira. Mas era tola ilusão. Toda vez que entramos numa casa deixamos nossos olhos do lado de fora nos esperando. Vivemos o tempo todo observados por nós mesmos sem perceber.

Lá estavam seus olhos observando o desenrolar do primeiro ciclo que ia se estabelecendo na medida em que ela ia entrando em conflito e vice-versa. A lareira começou a se apagar e ela não conseguia ver o que estava acontecendo de fato. Ela saiu com um punhado de cinza na mão. Seus olhos que tinham visto tudo de fora, guiavam-na numa linha nítida e reta que a levava ao extremo. Enquanto ela se recuperava, os pés pisavam o caminho projetado pelos seus olhos. Antes que ela terminasse de se recuperar, ela sentou numa porta pra descansar. Abriram-na e ela caí ali dentro sem saber muito bem onde estava. Havia uma lareira imensa, ela resolveu ficar porque estava muito frio lá fora.

Era como se seu teto caísse causando uma angústia provocada por sufocamento. Mas a sensação deveria ser um vazio porque ela não tinha mais casa. Essa Segunda foi mais uma doença que amor, ela ficou cega porque a lareira não se apagou e o amor que deveria estar espalhado pela casa estava concentrado em dois pontos móveis. Quando um entrava o outro saía. Na luz do dia percebiam seus defeitos e na escuridão da noite tornavam-se iguais. Tão preocupados consigo mesmos. E o Segundo se foi quando depois de tanto brincarem com fogo, alguém se queimou e jogou água na brasa do outro. Dessa vez carregava as cinzas do Primeiro e as mãos queimadas na brasa do Segundo.

Pegou seus olhos que a estavam esperando do lado de fora novamente, ele a mostrou dois caminhos que levavam a um paradoxo. O oposto do Primeiro e o oposto do Segundo e qualquer um dos dois que ela seguisse a levaria novamente a mesma casa que não seria nem o oposto de um e nem de outro. Resolveu então negar os dois, e pra negá-los, ela precisou negar o amor. Caminhou sem perder tempo construindo uma nova casa por onde passava. Era muita casa pra pouco amor. Um dia cansou de andar, por pra fora, sair de casa e ter sempre um acampamento nas costas. Resolveu aceitar as duas formas como suas e não mais como pessoas distintas na sua casa. A casa agora era ela própria, onde haviam habitado o Primeiro e o Segundo.

Resolveu que queria viver como na primeira casa. Bateu na porta do Primeiro, e por espanto, ela se abriu, ela entrou e a lareira continuava apagada. Faltavam alguns móveis na casa, havia decoração diferente. Ah sim, claro, não era a mesma casa, cada um levou o que era seu quando saíram. Quando voltaram para casa ambos haviam deixado pedaços de si em outras casas e trazido um pouco delas também. O Primeiro como terceiro era um erro, jamais projetaria a primeira casa. Saiu de casa de novo. Mas dessa vez carregava as cinzas do Primeiro, as cinzas do Segundo e a culpa, culpa de que agora não era possível viver nenhum e nem outro. Passou a caminhar se perguntando qual das duas maneiras seria a mais correta pra tentar encontrar o mais próximo. Não obtinha respostas.

Descobriu que precisava apenas acreditar no amor novamente, independente de formas ou experiências. Era só esperar acontecer novamente.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

A Misteriosa Máquina Humana

Um peso enorme pairou sobre minhas costas e meu corpo começou a ficar dormente. Percebi que ia ficar imóvel, na verdade já estava. Fazia uma força imensa pra me mexer, mas era impossível, era como se houvesse toneladas em cima de mim, não pesava, mas me tornava imóvel. Lutava entre dormir e acordar, estranhamente tentei me entregar ao sono e também não consegui.

O desespero foi tomando conta da minha mente a partir do momento em que percebi que eu não podia controlar meu corpo, que podia sequer obedecer a minha própria vontade. E nesse momento eu precisei lutar comigo mesma, ou com aquela energia que tentava me fazer sucumbir.

Podia ser um sonho ruim, mas eu estava consciente. Quando consegui recobrar o autocontrole, ou pelo menos, a sensação de perceber e modificar o que estava acontecendo comigo, notei que meu coração estava mais acelerado do que o de costume, aliás de uma forma que me assustava. Demorou um pouco, mas eu respirei fundo, calmamente, para que meu coração voltasse a bater na velocidade "normal". E foi neste momento que percebi que ainda não podia me mexer.

Pânico! Eu precisava me acalmar ou meu coração dispararia novamente. Eu precisava me mexer mas forçar meu pensamento para comandar o corpo a fazer isso desviava minha atenção do coração e eu tinha medo que ele saísse correndo novamente.

Percebi nesse dia que eu não era capaz de controlar meu próprio corpo e que se dependesse de mim todo o sistema entraria em colapso, porque eu não saberia controlar todos meus órgãos ao mesmo tempo.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Olhos recicláveis

Foto/Reprodução: Instagram

Mesmo tendo habituado meus olhos a verem só o que eu quero, às vezes me escapa o filtro, e acabo vendo aquilo que todos fazem questão de não enxergar: os homens invisíveis, as crianças invisíveis, as mulheres invisíveis. Estes só tomam forma quando lhe roubam o sossego ou por um descuido do olhar...

17:45, dia ainda claro, uma rua do Itaim Bibi... Pela calçada a maioria dos homens estavam engravatados e as mulheres de tailleur. Pela rua passavam alguns carros populares e muitos carros de luxo. Um dia normal, num lugar cotidiano...

Estava parada num ponto de ônibus, prestando atenção nos carros que vinham, meio zonza com o movimento até que um utilitário torto, desbotado, fazendo barulho parou ali. Saltou dele um garoto magrelo, moreno, muito magro, com movimentos bruscos dos membros e um chinelo escorregadio no pé, talvez uns quatro números maior que seu pé... me causava repulsa... e só.

Aquela cena me incomodava... destoava... mas logo passou... depois de recolher todas as caixas de papelão que estavam no lixo, com os mesmos movimentos bruscos, o chinelo torto e a camisa furada, o garoto entrou no utilitário, bateu a porta e com um arranco saiu dali.

Pisquei os olhos e o filtro se instalou novamente... continuava a esperar o ônibus que veio em alguns minutos...

Entre uma Santa Fé, uma Vera Cruz, um Audi Q7 e uma BMW M3, lá estava a chevrolet C10 1970 com uma carroceria de madeira, desta vez com o muleque torto em cima dela, dobrando os papelões que outrora jogou ali dentro.

E agora já não me causava repulsa... mas indginação.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Autossabotagem

Foto/Reprodução: Instagram

Nessa busca infinda por equilíbrio, tentei muitas vezes encontrá-lo, não fui bem-sucedida, me desequilibrei... Não era o que eu buscava... Parece que eu preciso viver nos extremos. O equilíbrio é que me entristece. Seja triste ou seja alegre, tudo que eu tenho certeza é que precisa ser intenso. Porque o que nos faz sentir vivos é a tensão, a dor de estar vivo.

E ainda nesse caminho do meio termo, muitas vezes me perdi nos outros, pelos outros, pelos meus objetivos, no mundo... Deixei de ser simples, deixei de ser humana e principalmente fraca... deixei de apreciar as coisas mais simples, as que possivelmente me trariam a felicidade, porque quando eu acabar de construir meu castelo... o que vai me faltar senão outro castelo sem utilidade?

Mas quando me olho no espelho às vezes vejo você e me pergunto... Onde você estaria? Quem seria você? Será que nunca aconteceria mesmo? Se a arte imita a vida por que nunca me aconteceu um fato inusitado? Sim, talvez aconteça todos os dias... Tudo está na forma de ver o mundo... E para construir meu castelo, antes de tudo eu construí um muro para que ninguém me atrapalhasse... Será que seria tarde demais derrubar o muro e construir uma grade pela qual eu possa ver o mundo e as pessoas possam ver meu sucesso depois que eu terminar o castelo?

Enquanto isso, você está anos a minha frente, já fez o mesmo percurso que eu ainda estou fazendo... No dia mais improvável você cruza meu caminho, eu estou totalmente despreparada e você me mostra que ainda sou frágil... Despe-me de mim mesma e me mostra quem eu realmente sou, ou melhor, que eu ainda posso ser quem eu quiser, até mesmo quem eu sempre fui... A sua aparência é contraditória e sólida enquanto a minha contradição está em construção. E apesar dessa cortina que você jogou em cima de si mesma, eu consigo enxergar dentro de você e me sinto segura, eu posso sentir quem você já foi, da mesma forma que você me mostrou que sou fraca... Eu estou seguindo o mesmo caminho e estou com medo. É como se agora, se você me desse a mão eu devesse continuar essa estrada árdua e se não, eu devesse derrubar o muro e deixar que as pessoas viessem me ajudar e quem quisesse atrapalhar que ficasse à vontade, pois eu não tenho mais tempo a perder.

Atualmente estou me perguntando até que ponto vale a pena deixar de ser eu mesma para construir meu castelo... Na verdade me sinto um pouco cansada de tudo isso... Sinto medo de meus objetivos não serem de fato o que eu realmente busco, ou mais que isso, que minha busca não é o que me trará felicidade...E descubro que você já tem seu castelo e, mesmo assim, ainda procura a felicidade todos os dias...

Além do muro eu tenho seguranças que no risco iminente do encontro comigo mesma, me preparam uma cilada para que eu faça tudo errado para eliminar qualquer possibilidade de envolvimento. Na berlinda entre a autossabotagem dos meus sonhos ou das minhas metas... Já estou no piloto automático, continuo com as minhas metas cada vez mais ousadas... O silêncio entre nós não incomodava, no fundo revelava quem realmente somos...

... o mesmo ser humano.